As cheias que devastaram o centro do país, a eleição de António José Seguro para Presidente da República e o “falso crescimento” das exportações de calçado foram os três temas em cima da mesa no mais recente episódio do podcast “O Que Ninguém Te Conta sobre Felgueiras!”, conduzido por Pedro Fonseca, com comentário de António Faria.
Logo na abertura, António Faria enquadrou a gravidade da situação provocada pelas recentes tempestades em Portugal. “Esta semana, por aquilo que foram as notícias que fomos vendo hoje, as coisas estão a correr melhor”, começou por dizer. “Desta vez caiu-nos a nós, sobretudo ali na zona centro do país, que foi a parte mais problemática: Coimbra, Leiria, Setúbal, Alcácer do Sal. Foi um problema grande para essas populações e continua a ser.”
António Faria lembrou que, apesar de a chuva ter acalmado, “a água continua lá, as barragens continuam cheias, a nossa autoestrada A1 está encerrada naquele bocado ali entre Coimbra e Coimbra Sul”, o que continua a condicionar a vida de muitas pessoas e empresas.
O comentador realçou também a dimensão política do problema. “Obviamente que isto vai trazer problemas para Portugal, vai trazer problemas para a economia portuguesa”, assinalou, pedindo que “os políticos a sério” evitem fazer aproveitamento. Recordou que “já trouxe consequências políticas com a demissão da nossa Ministra da Administração Interna” e considerou que “aquilo que é importante agora é os agentes políticos unirem-se à volta deste problema e ver como podemos realmente ajudar as pessoas que sofreram deste mal”.
Ao mesmo tempo, destacou o lado positivo da resposta social. “Faz-nos ver que realmente o povo português é um povo solidário, um povo amigo, um povo que gosta de ajudar o outro”, resumiu, defendendo que essa solidariedade “não se deve esbarrar agora na parte política”.
Pedro Fonseca pegou na ideia e trouxe o foco para Felgueiras. “Não me quero focar tanto na destruição, quero-me focar mais na resposta. Porque, mais uma vez, Felgueiras também mostrou um pouco daquilo que realmente vale”, afirmou.
O economista deu exemplos concretos. “Quando começaram a aparecer as imagens das casas sem telhado, a Pedrigosende não ficou a ver. Mobilizou 20 pessoas e enviou 3.000 telhas. Estiveram três dias em Leiria, até acabar o material. Isto não é simbólico. Isto é impacto real”, sublinhou.
Também a EDIBARRA “fez seguir quatro camiões com 40 paletes de material de construção: telhas, isolamento… material que faz a diferença entre uma casa aberta ao frio e uma casa protegida”. Pelo meio, empresas de transportes disponibilizaram viaturas e combustível e associações como a Associação de Voluntários de Airães ou o Rotary Club de Felgueiras ajudaram a organizar recolhas e entregas.
António Faria destacou que tudo isto foi feito “sem publicidade”, contrastando com o que veio a seguir na conversa: o comportamento de alguns protagonistas políticos durante a campanha presidencial.
Sobre as presidenciais, António Faria considerou que o resultado em Felgueiras “foi mais ou menos aquilo que foi o resultado a nível nacional” e rejeitou leituras simplistas. “Nem a vitória de António José Seguro é uma vitória da esquerda, nem aquilo que André Ventura diz é uma vitória da direita”, defendeu.
Na sua leitura, “na segunda volta não há vencedores quando se tem um resultado menos bom: há vencedores e há vencidos. E André Ventura foi um vencido”. Para António Faria, não faz sentido comparar o desempenho do líder do Chega “com Luís Montenegro nas legislativas”, nem ignorar que muitos eleitores o penalizaram pelo aproveitamento das cheias. “Aquilo que fez André Ventura nesta campanha — criar vídeos fictícios com chuva fictícia, carregar duas embalagens de água — não dignifica a política nem a classe política”, criticou, notando que o candidato teve “uma derrota pesada” precisamente nas zonas mais afetadas.
Pedro Fonseca sublinhou a forma como o ex-líder socialista virou a seu favor uma imagem inicial de fragilidade. “O nosso futuro Presidente da República passou de um candidato ‘patinho feio’ do Partido Socialista para um cisne”, ironizou. “Passou uma imagem de serenidade e calma. Acho que as pessoas gostaram disso, especialmente face à concorrência que tinha.”
O diretor do Felgueiras Magazine admitiu que muitos eleitores do centro-direita, como ele, contribuíram para a vitória. “Espero que tenha uma presidência moderada”, afirmou.
No terceiro e último tema, a conversa centrou-se na indústria do calçado, setor-chave para Felgueiras. Pedro Fonseca lembrou que a indústria fechou 2025 com um crescimento de 0,8% no valor das exportações, mas avisou que “0,8% é até inferior à inflação, portanto estamos a falar de um crescimento que no fundo não é crescimento — é falso crescimento”.
O economista alertou ainda para sinais menos visíveis nas estatísticas: “Há empresas em Portugal que estão a comprar sapatos já feitos, por exemplo na Ásia, e depois exportam-nos para outros países europeus. Ou seja, neste 0,8% podem entrar sapatos que não são produzidos em Portugal.” E deixou o aviso: “A indústria do calçado não está assim tão bem quanto isso e devemos estar atentos.”
Com a Lineapelle já terminada e a MICAM prestes a arrancar, o comentário virou-se para o terreno. “É preciso que venham muitas encomendas”, notou Pedro Fonseca, lembrando que decorrem em paralelo as negociações do contrato coletivo de trabalho entre APICCAPS e FESETE, onde o sindicato propõe um aumento significativo da massa salarial.
António Faria reconheceu que “os nossos empresários são muito lutadores”, mas listou vários desafios: “o aumento do salário mínimo — justo, mas pesado para as empresas — a carga fiscal, as acessibilidades e os custos de transporte”. E sintetizou a estratégia para o futuro: “Nós não podemos competir pelo preço, temos de competir pela qualidade — e na qualidade não há país nenhum que nos bata.”