Senhor Pimenta: Veio jogar à bola e ficou

Senhor Pimenta
Autor: Mário Adão Magalhães
Autor: Mário Adão Magalhães

Jornalista

Antes de o ser não o era. É! É um homem doce. Muito delicado e educado.

É assim o senhor Pimenta, homem que qualquer felgueirense de antanho – (a Felgueiras era mais nossa, sentíamos a terra, a cidade mais nossa) – o identifica como um exímio jogador do Futebol Clube de Felgueiras, o identifica como homem vertical, respeitador, mas sobretudo respeitado e completamente digno dessa devotação.

Alberto Pimenta chegou a este chão em 1963 para jogar no Futebol Clube de Felgueiras e por cá foi ficando e está cá muito bem. – É nosso.

É amado pelos felgueirenses, acolhido rigorosamente como um dos nossos.

Por cá constituiu família, consorciou-se em 1965 com uma dilecta senhora de Marco de Canaveses, dos lados da terra do senhor Pimenta, que é Resende.

Toda a vida me lembro de ver a esposa do senhor Pimenta, a senhora D. Fátima, muito asseada, de boa postura – adjectivos da época, a esposa do senhor Pimenta, é uma senhora distinta, elegante.

O senhor Pimenta veio dos lados de Viriato e é um dos mais exímios embaixadores de Felgueiras, porque se dado à conversa é um homem realmente impressionante. Culto, domina razoavelmente a cultura geral, sobretudo tendo em conta a sua época – o senhor Pimenta é um homem informado.

Dos lados de Viriato, Resende está muito bem representada, sobretudo nas cerejas e nas cavacas.
Das cerejas, de onde cada conversa sai mais uma outra historiazinha. Das cavacas porque o senhor Alberto Fernando Ferreira Pimenta, que nasceu em oito de Novembro de 1939, é realmente uma doçura de pessoa.

Eu entendo rigorosamente nada futebol. Nem as conversas vindas daí colhem em mim. Salvo alguma história engraçada. Nem esta narrativa pretende falar de futebol.

Doce, também pelo que um dia me contou: assistia em Fafe a um jogo da Associação Desportiva de Fafe defronte ao Benfica sem se manifestar para um ou outro lado, mesmo em jogadas empolgadas.
Num golo do Benfica também se não manifestou. Comportava-se como eu penso que deve ser: pela parte técnica.

Um espectador continuando a vê-lo imperturbável perguntou-lhe porque não se manifestava!
O senhor Pimenta retorquiu-lhe: Não tenho porque me manifestar. Vim ver o jogo.

Mesmo aqui se mostra polidez.

Sendo um homem da “bola” simultaneamente, estaria mais avalizado para aquilatar do jogo. Ou até não.

E é esta a grandeza dum homem singular no plural.

De Resende chegou para o primeiro treino que ditaria o seu futuro, num anoitecer, numa motorizada junto daquela que foi a Casa Primavera, na Rua Rebelo de Carvalho – estamos a falar de 1963 – onde o esperava o “cauteleiro Rua Nova” para lhe indicar o caminho para o campo de futebol. Ali logo ficou assente que ficava adstrito ao clube.

Por sua vez o cauteleiro aguardava-o ali a mando do senhor Luís Togo. O senhor Luís Togo, percebe-se homem influente, trabalhava nos CTT em Resende.

Ao senhor Pimenta, que por sua vez trabalhava no Registo Civil, Predial e Notário – aquilo a que chamamos Função Pública, ainda que não remunerado – naquilo a que chamaríamos estágio, o senhor Luís Togo volta a puxar da sua influência: arranjou-lhe um lugar de administrativo na Metalúrgica da Longra.

A doçura, a postura que o senhor Pimenta tem por cá é igual ao que venho bebendo – calado – a ouvi-lo. A falar-me sempre que me honra permitindo ouvi-lo.

Nietzsche ditou: Temos a arte para não morrermos de verdade.

(Não pratico deliberadamente o chamado Acordo Ortográfico)

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