O novo Retail Park de Felgueiras abriu portas na passada quinta-feira e, em poucos dias, tornou-se um dos assuntos mais debatidos na cidade. A infraestrutura, construída no antigo edifício da Belcor, traz consigo novas lojas, promessas de emprego e requalificação urbana — mas levanta também preocupações sobre o impacto no comércio tradicional da cidade.
No mais recente episódio do podcast “O Que Ninguém Te Conta Sobre Felgueiras”, Pedro Fonseca e Leonel Costa dedicaram boa parte da conversa à análise do novo equipamento comercial e às consequências que este pode ter no tecido económico e social da cidade.
Apesar de ainda não ter visitado o novo espaço, Leonel Costa admite a curiosidade: “Como qualquer felgueirense, sente-se curiosidade de ver. E esse é um dos aspetos mais positivos que tem aquele espaço — o ter tornado aquele edifício de luto da antiga Belcor agora num espaço mais aprazível.”
Para o comentador, os benefícios da obra são claros: “Há uma maior oferta para os felgueirenses e sabemos que a concorrência traz melhores preços e melhores serviços. E depois há a criação de emprego, que é sempre relevante.” No entanto, Leonel Costa não esconde a sua apreensão: “Para o comércio local, parece-me que é bastante negativo. Esta é mais uma facada num comércio local que já vem a passar por muitas dificuldades.”
Referindo-se ao contexto económico dos últimos anos, Leonel sublinha: “Depois de todo o tipo de hipermercados em Felgueiras, as chamadas lojas chinesas, a vulgarização das compras online — agora o Retail Park. E parece que está previsto já outro nas imediações do Mercadona. Isto é preocupante.”
Já Pedro Fonseca valoriza a requalificação do espaço urbano e destaca outro ponto de interesse do projeto: “Para mim, muito importante vão ser os 104 apartamentos que vão ser construídos no âmbito deste projeto. A oferta de habitação é essencial, mesmo que os preços não sejam acessíveis.”
Sobre o impacto no tecido empresarial local, Pedro utiliza um exemplo pessoal: “Imaginem, na minha área de negócios, aparecer um grande órgão de comunicação social com preços baixos e grandes capacidades técnicas — seria difícil competir. O mesmo se aplica aos advogados, como o Leonel, ou a qualquer outro setor. É preciso adaptar-se e responder às mudanças.”
Apesar das reservas, Pedro reconhece o entusiasmo da população: “De uma forma geral, acho que a população está contente com estas lojas. Todos temos aquelas marcas que gostávamos de ter mais perto.”
No segundo tema do episódio, o Festival das Francesinhas, Pedro Fonseca propôs uma mudança de nome e estratégia: “Sugiro que se passe a chamar Festival da Francesinha e do Vinho Verde de Felgueiras. Não para substituir a cerveja, mas para valorizar o nosso vinho, que é um produto âncora do concelho.”
A ideia, explicou, é sobretudo de marketing. “Bastava que os restaurantes participantes disponibilizassem duas ou três referências de vinho verde da região. Quem quisesse cerveja, podia continuar a ter. Mas é uma oportunidade para promover o que é nosso.”
Leonel Costa reagiu com bom humor: “Já experimentei francesinha com vinho verde. Não gostei. Mas percebo totalmente o que estás a dizer e acho que faz sentido puxar por aquilo que é nosso.”
Ambos concordaram que, embora a francesinha não seja um produto típico de Felgueiras, há margem para transformar o evento num palco de promoção do vinho verde. “Temos excelentes restaurantes, mas o que nos pode distinguir é o vinho. Veja-se o exemplo da Festa do Alvarinho em Monção e Melgaço — é algo gigantesco e reconhecido nacionalmente.”
Para Leonel, a chave está em “pensar em grande”, investindo num evento que possa criar uma marca forte para Felgueiras ligada ao vinho verde: “Este tipo de investimento pode ter um retorno duradouro, ao contrário de muitos outros com retorno fugaz.”
O episódio termina com um apelo à adaptação e à valorização do que é local. Entre o entusiasmo e a preocupação, Pedro e Leonel traçam um retrato atual e realista do momento que Felgueiras vive — entre a modernidade das novas infraestruturas e o desafio de preservar a identidade e a economia local.