Os militantes do Partido Socialista (PS) de Felgueiras são chamados às urnas amanhã, sábado, para decidir os destinos desta força política concelhia nos próximos dois anos. Trata-se de um ato eleitoral de elevada importância estratégica, num território onde o PS governa de forma consolidada através da coligação “Sim, Acredita” (estabelecida com o Livre). O escrutínio coloca frente a frente duas visões distintas para o futuro do partido: de um lado, Catarina Assis encabeça a lista que assume a herança institucional da atual governação; do outro, José Paulo Monteiro lidera uma candidatura alternativa que reclama a afirmação da identidade própria do partido face à coligação local.
A batalha interna reflete clivagens profundas nos bastidores socialistas. Catarina Assis avança para o sufrágio com o apoio de peso das principais figuras ligadas à governação municipal, destacando-se o Presidente da Assembleia Municipal, António Faria, e os vereadores Fernando Fernandes e Ana Medeiros. Em contrapartida, a candidatura de José Paulo Monteiro colheu o apoio de históricos da estrutura local, destacando-se Eduardo Bragança, antigo candidato à Câmara Municipal e ex-líder da concelhia de Felgueiras.
Duas visões para o partido: Continuidade vitoriosa versus resgate da essência
A candidatura de Catarina Assis surge como herdeira direta da atual direção e do projeto político associado à coligação Sim Acredita, que governa o concelho. A candidata assume-se como representante de uma linha de continuidade, embora defenda alterações na organização interna do partido.
“A minha candidatura assenta em cinco eixos: renovação, escuta ativa dos militantes, futuro, proximidade e reforço da estrutura interna”, afirma. Entre as prioridades, destaca a intenção de “modernizar a comunicação da concelhia, abrir a sede com regularidade e criar canais diretos para que cada militante tenha voz”.
Catarina Assis pretende ainda reforçar a participação de novos setores da sociedade na vida partidária. “Aposto fortemente na captação de jovens e mulheres para a vida partidária, e em percorrer todas as freguesias para conhecer de perto as suas realidades”, refere.
É uma candidatura de continuidade vitoriosa, não de rutura.
Catarina Assis
A candidata considera que o futuro do partido passa por uma combinação entre renovação e continuidade. “A minha visão é de um PS Felgueiras moderno, próximo das pessoas e preparado para os desafios do futuro — sem nunca esquecer o trabalho já feito. É uma candidatura de continuidade vitoriosa, não de rutura.”
Do outro lado surge José Paulo Monteiro, rosto da candidatura alternativa, que defende uma maior afirmação da identidade socialista e um partido mais próximo dos militantes e das freguesias.
“A nossa grande prioridade é resgatar a verdadeira essência do Partido Socialista, garantindo que nestes próximos dois anos o PS terá afirmação, com o seu cunho e voz ativa”, afirma.
Para o candidato, a participação do PS na coligação que governa o concelho não pode significar o desaparecimento da identidade socialista. “Fazer parte de uma coligação significa estar ativo na defesa desse projeto e não anular o partido no contexto político-partidário local e nacional.”
A nossa grande prioridade é resgatar a verdadeira essência do Partido Socialista.
José Paulo Monteiro
José Paulo Monteiro defende igualmente uma maior proximidade ao território. “Queremos um partido focado nas pessoas, alargando o horizonte a todos os felgueirenses através de uma constante proximidade nas antigas 32 freguesias, para ouvir as suas necessidades.”
A sua visão passa pela criação de uma estrutura mais aberta aos militantes. “A minha visão é a de um partido plural, onde todos os militantes, sem exceção, terão uma voz ativa e onde jamais haverá socialistas envergonhados da sua escolha e origem partidária”. Para José Paulo Monteiro o PS “não pode viver na sombra nem fechado na sua própria cúpula.”
O exame à coligação “Sim, Acredita” e a gestão municipal
Apesar das diferenças de posicionamento, ambos os candidatos fazem uma avaliação favorável do atual executivo municipal.
Catarina Assis afirma olhar para o trabalho desenvolvido “com orgulho”, recordando que “o Partido Socialista é parceiro desta coligação”. Na sua perspetiva, “durante quase uma década, os socialistas de Felgueiras souberam fazer política com responsabilidade e pragmatismo, entendendo que governar é mais importante do que a pureza das siglas”.
Uma coligação que ganha por maioria absoluta serve melhor os felgueirenses do que uma derrota solitária.
Catarina Assis
Por isso, defende que “uma coligação que ganha por maioria absoluta serve melhor os felgueirenses do que uma derrota solitária”. A candidata acrescenta que existe espaço para mudanças, mas apenas ao nível da organização interna do partido. “Continuidade plena na parceria de governação, sim — com correção de rumo apenas na forma como o PS se organiza e comunica internamente.”
José Paulo Monteiro também sublinha o compromisso com a estabilidade política do concelho. “A atual governação deste executivo teve, como todos sabem, o apoio do Partido Socialista. Nós somos pessoas de palavra: honraremos o nosso compromisso com estabilidade até ao final do mandato.”
O PS, enquanto maior partido em Felgueiras, não pode viver na sombra nem fechado na sua própria cúpula.
José Paulo Monteiro
O candidato considera que existe um balanço positivo da governação municipal. “Fazemos uma avaliação positiva do trabalho desenvolvido”, afirma, acrescentando, contudo, que “o PS não abdica da sua autonomia e espírito crítico”. Defende ainda que os socialistas devem “garantir que o cunho e a identidade socialista se façam ouvir com clareza em cada decisão”.
O desafio da unidade pós-eleitoral
A unidade do partido após o ato eleitoral é outro dos temas centrais da campanha.
Catarina Assis garante acreditar que o PS sairá unido das eleições e diz que essa preocupação esteve presente desde o início do processo. Revela ter tentado “construir uma lista de união”, mas afirma que essa possibilidade foi recusada pela candidatura adversária.
A candidata manifesta também críticas ao processo eleitoral, lamentando “a ausência da outra candidatura no debate organizado pela Rádio Felgueiras para esclarecer os militantes” e apontando ainda “a falta de transparência que tem marcado o processo”.
Felgueiras precisa de um Partido Socialista forte, autónomo e sem medo de assumir a sua própria identidade política.
José Paulo Monteiro
Apesar disso, assegura que o compromisso com a união permanece. “Se vencer, o meu primeiro gesto será de mão estendida a todos — porque liderar implica ouvir, incluir e servir, nunca excluir ou impor.”
Também José Paulo Monteiro garante que a unidade será uma prioridade após a votação. “O meu compromisso é categórico: findo o ato eleitoral, não haverá mais divisões ou disputas de listas internas. Haverá sim, um só Partido Socialista.”
O candidato afirma que pretende “convergir e abraçar as diferenças que naturalmente existem num partido pluralista, democrático e diversificado” e deixa uma mensagem direta à militância: “No dia 21, independentemente dos resultados, seremos todos socialistas e trabalharemos lado a lado.”
Questionados sobre aquilo que consideram faltar a Felgueiras, ambos responderam a partir da perspetiva do papel que o PS deve desempenhar no concelho.
Se vencer, o meu primeiro gesto será de mão estendida a todos.
Catarina Assis
Para Catarina Assis, “Felgueiras precisa de uma estrutura partidária à altura do seu próprio dinamismo”, defendendo “mais presença digital, mais proximidade nas freguesias e mais espaços de participação para jovens e mulheres na vida política local”.
Já José Paulo Monteiro considera que “Felgueiras precisa de um Partido Socialista forte, autónomo e sem medo de assumir a sua própria identidade política”. O candidato entende que a sua candidatura representa “a coragem de afirmar o PS com orgulho e uma proximidade real e diária com as pessoas”.
A decisão cabe agora aos militantes socialistas. O resultado determinará quem liderará a concelhia nos próximos anos e qual das duas visões prevalecerá: a continuidade da linha seguida pela atual direção ou uma maior afirmação da identidade própria do Partido Socialista no panorama político local.