Há instituições que vivem debaixo do radar. Não fazem inaugurações com o aparato de uma câmara municipal, não têm a exposição pública de uma associação empresarial, nem a proximidade imediata de uma junta de freguesia. Mas vão deixando rasto. No caso da ADER-SOUSA, esse rasto mede-se em candidaturas, percentagens de comparticipação, edifícios recuperados, percursos pedonais, apoio a produtores, iniciativas culturais e pequenos negócios que, sem fundos comunitários, talvez nunca tivessem saído do papel.
Sediada na Rua Rebelo de Carvalho, em Felgueiras, a ADER-SOUSA — Associação de Desenvolvimento Rural das Terras do Sousa — é uma associação de direito privado de âmbito local. Atua em Felgueiras, Lousada, Paços de Ferreira, Paredes e Penafiel, e, desde 1991, é o Grupo de Ação Local responsável pela implementação da abordagem LEADER, que se tem concretizado através da iniciativa comunitária LEADER, do SP3-PRODER (Programa de Desenvolvimento Rural) e, mais recentemente, do DLBC (Desenvolvimento Local de Base Comunitária) no território. A estratégia mais recente envolve 32 parceiros de nove setores de atividade e assenta numa ambição ampla: crescimento, emprego, inclusão social, valorização do património e sustentabilidade do mundo rural.
Ainda assim, em Felgueiras, continua a ser uma entidade pouco conhecida. Talvez por isso o ponto de partida da conversa com José Sousa Guedes, coordenador da associação, tenha sido quase pedagógico. “A ADER-SOUSA podemos dizer que surgiu por um casamento de conveniência”, explica, recuando a 1991, quando a então iniciativa comunitária LEADER desafiou os territórios a definirem uma parceria e uma estratégia para poderem receber subvenções europeias.

A genealogia ajuda a perceber o presente. A ADER-SOUSA começou por juntar municípios, mas depressa se alargou a cooperativas, associações empresariais, associações culturais, entidades de desenvolvimento e banca local. Hoje, insiste José Sousa Guedes, a missão formal continua a ser “a promoção do desenvolvimento regional e local, tendente à melhoria das condições sociais, culturais e económicas das respetivas populações”. Mas, na resposta menos burocrática e mais reveladora, prefere outra definição: “Para mim, a ADER-SOUSA é principalmente uma concretizadora de sonhos.” E desenvolve: “Permite que empresários e entidades do território consigam desenvolver aquilo que pretendem, os seus objetivos. Ajuda a criar empresas, ajuda a melhorar edifícios, ajuda as instituições culturais a desenvolver a sua atividade.” Numa frase, diz, “as pessoas pretendem fazer algo e nós conseguimos ajudá-las a concretizar essa intenção, esse objetivo”.
Essa concretização, pelo menos em Felgueiras, traduz-se em volume. “Aqui em Felgueiras foram cerca de 200 [projetos]; em todo o território, cerca de 800”, afirma o coordenador. Questionado sobre a escala financeira, responde sem hesitar: “Em investimento, mais de 7,5 milhões. Em dotação, um pouco mais de 4 milhões, em Felgueiras.” O retrato é o de uma intervenção dispersa, mas continuada, e que atravessa setores muito distintos. “É muito diverso: agricultura, artesanato, formação, recuperação de património, alojamento turístico, caminhos pedonais, apoio social, cultura, serviços, …por exemplo veterinários e uma empresa de gravação a laser para calçado, todos em Felgueiras”.
A lista ganha corpo quando surgem os exemplos. José Sousa Guedes fala do Finca Pé, “um veterinário que, com uma máquina de imobilização de gado bovino, consegue andar de exploração em exploração a tratar dos cascos”; fala da Casa do Risco, projeto cultural promovido pelo Município de Felgueiras para preservar e valorizar o bordado local; fala do posto de vendas da Cooperativa Agrícola de Felgueiras; fala do Museu Casa do Assento; e fala das Levadas de Jugueiros, inauguradas em abril de 2025. No caso da Casa do Risco, a própria ADER-SOUSA descreve a operação como um esforço para dotar o espaço de instalações e equipamentos de formação, divulgação e comercialização; no caso de Jugueiros, o percurso circular tem 8,3 quilómetros e foi apresentado como uma combinação de património ambiental, histórico e cultural.
É aí que o discurso institucional se aproxima do quotidiano. Quando o tema passa para o emprego, o coordenador da ADER-SOUSA recorre a números concretos: “Em Felgueiras já criámos 59 postos de trabalho a tempo inteiro e 68 a tempo parcial.” Não fala de grandes fábricas, nem de operações de escala industrial. Pelo contrário: “São essencialmente pequenas empresas, criam um, dois postos de trabalho.” E faz uma distinção importante: nem todo o impacto é imediato ou estatístico. “Há projetos que não têm criação de postos de trabalho direta. Por exemplo, o Museu Casa do Assento, na altura era um senhor reformado; atualmente acredito que esteja gente a trabalhar no museu.” Em dezembro de 2025, o próprio museu foi reconhecido como “Museu de Território”.

No imaginário de muitos pequenos empresários, a palavra decisiva continua a ser uma só: comparticipação a “fundo perdido”. “Inicialmente a taxa era superior. Hoje em dia andamos pelos 50-55%”, resume José Sousa Guedes. Mesmo assim, continua a ser um valor capaz de fazer diferença. Mas o coordenador recusa a fantasia do dinheiro fácil. O primeiro conselho que deixa a quem pretende candidatar-se é quase uma regra moral: “Que realmente queira fazer disso o seu modo de vida, o seu negócio, o seu ganha-pão.” E insiste: “Que se dedique a sério e que não seja uma atividade complementar.” O segundo aviso vai contra a tentação de ver os apoios como almofada: “Que pense no projeto como um negócio rentável. Não é porque vou ter um apoio que, ‘se não der, também não perco muito’.” E o terceiro é administrativo, mas decisivo: “Pensar na questão dos licenciamentos — fiscal, obra, água.”
Apesar disso, a associação continua a mexer-se. Além dos apoios à agricultura que estão em análise, estão previstas novas oportunidades ligadas à transformação de produtos agrícolas, bioeconomia, economia circular, turismo, animação e comércio. A informação pública mais recente aponta para 2,5 milhões de euros de financiamento assegurado no âmbito do PEPAC 2023-2027 para impulsionar o desenvolvimento sustentável nos cinco concelhos do território. E as tipologias previstas passam precisamente por áreas como diversificação da economia local, cadeias curtas, mercados locais e valorização do património rural e cultural.
Mas talvez um dos traços mais curiosos da história da ADER-SOUSA esteja precisamente nas casas que foi ocupando ao longo do tempo. Antes da atual sede em Felgueiras, na antiga casa dos magistrados, a associação passou por espaços improváveis. Durante vários anos funcionou no Mosteiro de Pombeiro, numa fase em que o monumento estava ainda longe da reabilitação e do destaque que hoje tem. “Trabalhámos lá um bom par de anos”, recorda José Sousa Guedes. Primeiro na antiga biblioteca, depois na ala das celas. “Aquilo chegou a certa altura que já não conseguíamos estar lá” e, resume, “chovia lá dentro”. Mais tarde, a ADER-SOUSA mudou-se para o Grémio, no centro de Felgueiras, onde também as condições estavam longe do ideal.
Esse enraizamento no território não se explica apenas pelos programas que gere ou pelos projetos que acompanha. Explica-se também pelas pessoas. Ao longo dos anos, a equipa técnica da ADER-SOUSA tornou-se uma das grandes mais-valias da instituição: gente conhecedora do território, próxima dos promotores, habituada a lidar com a burocracia, mas sem perder a dimensão humana do trabalho. Numa área em que o excesso de regras, formulários e plataformas pode afastar quem mais precisa de apoio, a competência e a disponibilidade da equipa fazem muitas vezes a diferença entre uma ideia que fica na gaveta e um projeto que avança. É essa combinação de experiência, dedicação e vontade de ajudar que ajuda a explicar por que razão a associação continua a ser, para muitos, uma porta de entrada possível para transformar intenções em investimento.
Talvez seja isso que torna a ADER-SOUSA um caso curioso em Felgueiras: a associação existe, financia, acompanha, articula, anima e ajuda a desenhar partes do território, mas continua, para muita gente, quase invisível. José Sousa Guedes sabe-o. E por isso fecha com uma espécie de apelo discreto, mais próximo do serviço público do que da auto-promoção: “É muito bom podermos transmitir aquilo que fazemos e espero que realmente as pessoas fiquem a conhecer mais a ADER-SOUSA e que venham cá mais vezes.” Num concelho habituado a olhar para a indústria, para a política e para os conflitos do dia-a-dia, talvez faça sentido prestar atenção, finalmente, à máquina discreta que, há mais de três décadas, trabalha nos bastidores.