Este episódio de “O mais Famoso Podcast sobre Calçado!” foi gravado na Olifel durante o evento “Olifel Win Together”, que incluiu uma mesa-redonda dedicada ao tema “O Futuro das Empresas entre a Tradição e a Inovação”.
A Olifel celebrou o seu 37.º aniversário com a iniciativa “Olifel Win Together”, que incluiu uma mesa-redonda dedicada ao tema “O Futuro das Empresas entre a Tradição e a Inovação”. O encontro juntou empresários de referência, parceiros tecnológicos e clientes, tendo como moderador Pedro Fonseca, economista e diretor do Felgueiras Magazine, que destacou desde logo a importância do momento. “Por este 37.º aniversário, os parabéns ao Rui Mendes e a todos os colaboradores, presentes e passados, desta empresa. A Olifel tem sido um pilar tecnológico da nossa região e hoje estamos aqui não só para celebrar, mas também para pensar o futuro”, afirmou.
Pedro Fonseca apresentou então os intervenientes do painel: André Coelho, representante da terceira geração da Anjonel, empresa com quase 50 anos de história; Armindo Peixoto, CEO da Armipex, com 48 anos de experiência; e Rui Mendes, fundador e CEO da Olifel, anfitrião da sessão. “Vamos debater como tradição e inovação se cruzam no setor. O que é que a indústria do calçado deve estar a fazer já, agora, e qual é a vossa visão para o futuro?”, lançou o moderador, passando a palavra a André Coelho.
André Coelho: Saber fazer não chega — o desafio está na estrutura e nos processos
André Coelho começou por agradecer o convite e destacou que a discussão não podia limitar-se apenas à tecnologia. “Quando falamos de tradição e inovação, gosto de olhar para além das máquinas e focar-me naquilo que é estrutural para o setor. A Anjonel vai completar 50 anos e aquilo que nos trouxe até aqui foi o saber-fazer. Portugal, neste momento, está ao nível de países como a Itália ou a Espanha nesse campo”, disse. Ainda assim, o gestor deixou claro que a realidade mudou. “Julgo que a Anjonel comunga também muito desta posição: achamos que, cada vez menos – e eu vou ser radical nesta afirmação – cada vez menos interessa a execução do produto e interessa muito mais tudo o que está à volta de basicamente fazer o sapato”, afirmou.
O responsável da Anjonel acrescentou que a gestão da informação é hoje determinante para o sucesso. “Mais do que fazer sapatos, nós temos de receber dados, interpretar dados e tomar decisões justas e fundamentadas para a empresa. Informação clara, concisa e imediata é fundamental. Só assim conseguimos responder a clientes cada vez mais exigentes e diversificados”, sublinhou.
André Coelho defendeu que as empresas devem investir nos processos de gestão e resposta ao cliente. “A exigência neste momento – pelo menos essa é a nossa perspetiva, é a nossa experiência – não está tanto no saber-fazer, não está tanto na conceção de produtos. Está sim na resposta ao cliente, na prototipagem do produto, na amostragem, no planeamento produtivo da empresa, no planeamento estratégico, no planeamento financeiro.”
A visão foi reforçada com um exemplo prático da realidade interna da empresa. “Na Anjonel olhamos para quatro grandes áreas que têm de funcionar em sintonia: a parte comercial, que também envolve a amostragem; a prototipagem; o planeamento, que não é apenas produtivo, mas também estratégico; e a relação com o cliente, complementada com uma gestão financeira rigorosa. Estes pilares têm muito da tradição, porque preservam o saber-fazer, mas também carregam um enorme potencial de inovação”, concluiu.
Armindo Peixoto: A tecnologia chegou, mas a mão de obra está a desaparecer
Armindo Peixoto, CEO da Armipex, trouxe para o debate a experiência de quem viveu todas as fases de evolução do setor. “Quando começámos, em 1977, não havia tecnologia nenhuma. A única tecnologia era a mão de obra. Não havia máquinas, não havia nada. O que tínhamos era vontade de trabalhar e de aprender”, recordou. O empresário lembrou que foi essa necessidade de adaptação que o levou a apostar na inovação.
O empresário explicou que a grande viragem aconteceu com a aposta na gestão. “Já em 1994, começámos a trabalhar com a Olifel para implementar sistemas de gestão. Hoje temos ERP, fichas técnicas, controlamos a expedição e faturação, e a produção é monitorizada ao segundo. Até o corte está praticamente todo automatizado. E temos robôs – mas só porque temos clientes que nos garantem quantidades.”
Armindo Peixoto foi claro na sua análise: “Não vale a pena pensar em pôr robôs se não há quantidades. Não vale a pena ter bons softwares se não temos encomendas. Temos que inovar.” E acrescentou: “Inovar não significa só internamente na empresa. Significa que nós temos que o aplicar com outras ferramentas, com outras formas de vender, com valor acrescentado.”
Realçou também a singularidade portuguesa. “Portugal é o único país dentro da Europa que ainda consegue fazer tudo internamente. Eu sei que a Itália faz sapatos: cortam numa fábrica, costuram noutra, montam noutro lado, quer dizer, o produto final não existe dentro da fábrica.”
Destacou a urgência da inovação: “Se queremos continuar a ter empresas e continuar a trabalhar e continuar a ter a indústria de calçado ativa, é de facto inovar. Inovar com coisas que sejam, digamos, bem-vindas a cada um dos sistemas de fábrica.”
O empresário aproveitou ainda para lançar um alerta para o futuro da indústria. “Quem sabe fazer tem, na maioria dos casos, mais de 50 anos. Os mais novos não querem aprender. Se não inovarmos agora, a indústria vai ter sérias dificuldades. É preciso agir antes que seja tarde”, defendeu. E rematou com a frase que, segundo diz, repete há mais de uma década: “Inovar ou morrer. Essa é a realidade do nosso setor.”
Rui Mendes: Olifel aposta em inteligência artificial para tornar as empresas mais competitivas
Rui Mendes encerrou a mesa com uma intervenção centrada na importância das empresas tecnológicas no apoio à competitividade da indústria. “Vejo o futuro necessário em três grandes pilares. Primeiro, nós vamos ter que ter empresas e empresas competitivas. Depois vamos ter que fazer parcerias com os centros tecnológicos e com os centros de conhecimento. Cada vez mais nós temos as universidades, estamos a produzir pessoas altamente qualificadas. Elas têm que fazer parte das nossas estruturas, quer da Olifel, quer das empresas nas quais a Olifel trabalha. E depois, claro, temos as empresas tecnológicas que têm também que acompanhar todas estas necessidades.”
Explicou ainda que a Olifel está a aplicar soluções concretas já hoje. “Na parte tecnológica, que é a parte que mais estou envolvido, acho que nós temos duas grandes áreas que temos que intervir. A primeira é a parte do produzir, do saber-fazer. Temos esse know-how, temos que continuar a aplicar. Mas também temos que inovar aí. Hoje em dia, na Olifel, estamos a trabalhar com inteligência artificial no planeamento. Estamos a trabalhar no chão de fábrica ao minuto, como diz o Sr. Peixoto, já instalado com sucesso na empresa dele.”
E deixou clara a mudança de paradigma: “Hoje em dia, o cliente faz parte da nossa empresa também. Nós temos que ter plataformas digitais que possam estar em contacto direto com o cliente. O cliente hoje em dia vai ter que nos acompanhar, quer quando estamos na parte das amostras ou na parte da prototipagem. O cliente vai estar connosco na parte da produção, vai saber quando é que nós começámos, quando é que nós acabámos. Ele vai querer saber se nós já expedimos ou se não expedimos.”
O CEO da Olifel concluiu com uma promessa clara: “Vamos continuar a investir em inteligência artificial, investigação e desenvolvimento. O nosso objetivo é dar às empresas ferramentas que lhes permitam inovar, manter a competitividade e, acima de tudo, preparar-se para o futuro.”
O evento “Olifel Win Together” demonstrou que tradição e inovação não só podem como devem caminhar lado a lado. O evento deixou claro que, no setor do calçado, tradição e inovação não são opostos, mas complementares. O saber-fazer continua a ser um ativo valioso, mas só terá futuro se for reforçado pela tecnologia, pela gestão profissional e por uma relação de proximidade com o cliente.