A indústria portuguesa do calçado vai apresentar, na próxima quarta-feira, em Felgueiras, os resultados finais do BioShoes4All, o maior projeto colaborativo alguma vez desenvolvido pelo setor no domínio da bioeconomia, sustentabilidade e inovação industrial.
A sessão contará com a presença do Ministro da Economia e reunirá empresas, centros tecnológicos, universidades e entidades públicas que participaram nesta iniciativa financiada pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).
Ao longo de mais de quatro anos, o BioShoes4All mobilizou 69 parceiros, envolveu um investimento de 60 milhões de euros e gerou mais de 200 resultados científicos, tecnológicos e industriais, muitos dos quais já preparados para aplicação pelas empresas, reforçando a competitividade internacional do cluster português do calçado.
Para Luis Onofre “o BioShoes4All demonstrou que Portugal não se limita a acompanhar as grandes transformações da indústria mundial. Portugal ajuda a liderá-las”. De acordo com o Presidente da APICCAPS “o maior resultado deste projeto não são apenas os materiais desenvolvidos, as tecnologias demonstradas ou as soluções criadas. A nossa maior conquista é a capacidade que construímos em conjunto”.
De acordo com o líder associativo, “o BioShoes4All chega hoje ao fim, mas deixa-nos muito mais do que resultados: deixa-nos uma indústria mais preparada, uma rede de colaboração mais forte e a confiança de que somos capazes de continuar a liderar a transformação do setor”. “A responsabilidade é agora nossa: construir uma indústria mais forte, mais sustentável e mais competitiva para as próximas gerações”, concluiu.
Solução inovadoras
Entre as principais inovações desenvolvidas destacam-se uma nova geração de biomateriais, incluindo couros obtidos com extratos vegetais e alternativas ao crómio, biopolímeros, compósitos produzidos a partir de cortiça, resíduos agrícolas e marinhos, têxteis inovadores desenvolvidos com caroço de azeitona ou resíduos de castanha, bem como novas solas, palmilhas e componentes de origem biológica.
O projeto permitiu igualmente criar uma nova geração de calçado e marroquinaria ecológicos, com menor pegada ambiental, produtos monomaterial mais fáceis de reciclar, componentes mais leves e processos produtivos mais eficientes, conciliando sustentabilidade, design, conforto e elevado desempenho técnico.
Na área da economia circular, foram desenvolvidas soluções para reincorporar resíduos de couro, polímeros, borrachas e têxteis em novos produtos, criar novos compósitos, recuperar materiais provenientes do pós-consumo e promover simbioses industriais entre diferentes setores de atividade, prolongando o ciclo de vida dos materiais e reduzindo o consumo de recursos naturais.
O BioShoes4All acelerou ainda a transformação tecnológica da indústria através da introdução de fábricas inteligentes, inteligência artificial, visão artificial, Internet das Coisas, gémeos digitais, robotização, corte inteligente de materiais, sistemas avançados de controlo da qualidade e novos processos de fabrico com biomateriais, tornando a produção mais eficiente, flexível e sustentável.
Os resultados alcançados superaram as metas inicialmente previstas. O projeto concluiu 46 linhas de investigação, desenvolveu mais de 50 novos produtos de menor pegada ecológica, implementou 25 linhas piloto industriais, criou oito plataformas e bases de dados, promoveu sete simbioses industriais e desenvolveu programas específicos de formação e capacitação para as empresas.
“O projeto BioShoes4All demonstra que a bioeconomia sustentável constitui um caminho credível e exequível para a transformação do Cluster do Calçado e uma visão estratégica para o futuro do setor”, afirma Maria José Ferreira, coordenadora do projeto. “O legado do BioShoes4All reforça a capacidade do Cluster para continuar a desenvolver soluções de elevado valor acrescentado, afirmando Portugal como um parceiro de referência na construção de uma bioeconomia europeia mais sustentável, resiliente e inovadora”, acrescenta.
Mais do que um projeto de investigação, o BioShoes4All deixa um legado duradouro para a indústria portuguesa do calçado. O conhecimento gerado, as infraestruturas criadas e as competências desenvolvidas constituem uma plataforma para acelerar a adoção de soluções sustentáveis, reforçar a competitividade das empresas e consolidar Portugal como uma referência europeia na inovação aplicada ao calçado e à marroquinaria.
Comissão Europeia aplaude
De acordo com o Comissário Europeu para a Economia e Produtividade, Valdis Dombrovskis, que coordena o PRR, a indústria portuguesa do calçado é um exemplo de como a Europa pode reforçar a sua competitividade através da inovação, da sustentabilidade e da aposta na qualidade.
O responsável europeu destaca o papel do projeto BioShoes4All, considerando que a iniciativa apoia áreas “diretamente ligadas à competitividade futura”, como os biomateriais, a eficiência dos recursos, as ferramentas digitais, a valorização de resíduos e a ligação entre a investigação e a indústria. “Este é o tipo de investimento de que a Europa precisa: direcionado, prático e ligado às necessidades reais da indústria”, declarou. Para Dombrovskis a indústria portuguesa do calçado demonstra que “tradição e modernização podem caminhar juntas” e que o investimento europeu pode ajudar as empresas a preparar o futuro. “A competitividade da Europa será construída passo a passo, por indústrias que inovam, empresas que investem e trabalhadores com as competências certas. A indústria portuguesa do calçado está a caminhar com confiança para o futuro e a ajudar a Europa a fazer o mesmo”, concluiu.