No Monte de Santa Quitéria, Marta Rocha, candidata à presidência da Câmara Municipal de Felgueiras pela coligação Agora Felgueiras (PSD/CDS-PP), sentou-se com Pedro Fonseca, diretor do Felgueiras Magazine, para uma conversa sem filtros. Entre temas sérios, perguntas diretas e até respostas rápidas, a troca de ideias percorreu habitação, mobilidade, rendimentos, comércio local, oportunidades para jovens qualificados e, claro, algumas preferências pessoais.
Pedro Fonseca
Olá Marta, estás pronta para esta nossa conversa?
Marta Rocha
Olá Pedro, estou pronta e agradeço o convite.
Pedro Fonseca
Nós estamos a filmar e a gravar esta conversa no Monte de Santa Quitéria, que é um dos meus locais preferidos do concelho de Felgueiras. Qual é o teu local preferido no nosso concelho?
Marta Rocha
É muito difícil responder a essa pergunta, mas posso propor-te fazeres um programa como este sobre os melhores sítios de Felgueiras para assistir ao pôr-do-sol.

Pedro Fonseca
Este é um deles?
Marta Rocha
Este é um deles. Outro é a Senhora da Aparecida, em Pinheiro, que é um sítio também muito tranquilo e muito bonito. A Igreja de São Mamede, em Vila Verde, tem um pôr-do-sol magnífico. É muito difícil responder porque todas as freguesias têm sítios verdadeiramente extraordinários e de grande beleza natural — e são sempre esses os meus preferidos.
Pedro Fonseca
Tenho de concordar. Fica a tua sugestão e, um destes dias, vamos tentar fazer isso. A próxima pergunta, para mim, é a mais importante de todas as que te vou fazer aqui nesta conversa — aquela que realmente importa à grande maioria dos felgueirenses. Felgueiras é um concelho de salários baixos, o rendimento das famílias felgueirenses tem crescido menos do que a média da região do Tâmega e Sousa, e a região do Tâmega e Sousa é a mais pobre do país. Como é que a Câmara Municipal pode ajudar a inverter esta situação? Nós precisamos de melhores salários em Felgueiras.
Marta Rocha
Sim. A questão do rendimento está relacionada não só com o salário, mas também com o custo de vida e as despesas do agregado familiar. Uma das coisas que as Câmaras Municipais podem fazer é precisamente criar condições para mitigar essas despesas. Uma das que, hoje em dia, é demasiado elevada é a habitação — e é aí que entra uma das nossas propostas.
Outra é impulsionar e apoiar o comércio local e as pequenas e médias empresas, de modo a criar novos negócios e postos de trabalho. Também defendemos a redução do IMI e de outros impostos, como a derrama. Tudo isto poderá aliviar um pouco a vida das famílias.
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Pedro Fonseca
O lema da tua candidatura, como já disse na introdução, é Não te conformes. Diz-me algo com o qual nunca te conformas — como candidata e como cidadã.
Marta Rocha
Como cidadã e como candidata — porque somos uma e a mesma pessoa — não me conformo com a injustiça, com a pobreza e com o preconceito. A injustiça porque, frequentemente, dentro da política — mas não só — vemos pessoas com mérito e trabalho que não são reconhecidas. O preconceito porque ainda vivemos num concelho um pouco machista. E sinto — e acho que devo dizê-lo — que as mulheres muitas vezes têm de trabalhar o dobro, esforçar-se o dobro e provar o dobro, para terem metade do reconhecimento.
Pedro Fonseca
Foste Presidente da JSD de Felgueiras. Que conselho darias a ti própria quando começaste na JSD, em 2004, se não me engano?
Marta Rocha
Sim. Eu acho que estamos onde devemos estar e que as coisas acontecem em função das escolhas que vamos fazendo. Portanto, não daria nenhum conselho que alterasse o meu percurso político, porque tive uma passagem pela política da juventude e depois afastei-me — e afastei-me bem. Acho que, na política, devemos estar sempre temporariamente.
Pedro Fonseca
Vamos falar do teu programa eleitoral — ou, pelo menos, do que já é conhecido. A habitação é uma das bandeiras da coligação. O que é que a tua candidatura propõe?
Marta Rocha
A minha candidatura propõe, para a habitação, entregar chaves de 50 a 100 habitações — ainda não temos o número final, porque depende de custos e também de candidaturas a fundos comunitários. Mas acreditamos que devemos aproveitar todas as oportunidades de financiamento, nomeadamente europeu, para criar habitação a custos controlados.
Ainda não há muito conhecimento sobre estas medidas, porque as pessoas confundem habitação social com habitação a custos controlados. A habitação social responde à falta de casa para famílias vulneráveis e com baixos rendimentos. Já a habitação a custos controlados destina-se à classe média, com rendas justas e equilibradas, e não com os valores elevados que se praticam atualmente.
Compete agora às autarquias construir habitação para a classe média, resolvendo dois problemas: por um lado, ajudando famílias que não conseguem pagar rendas de 500, 600 ou 700 euros, mas que poderiam pagar, por exemplo, 300; por outro, influenciando o mercado e fazendo baixar os preços praticados no arrendamento.
Esta é uma das nossas bandeiras: construir habitação para famílias de classe média, aliviando os seus rendimentos — como falávamos há pouco. Hoje, uma família com dois salários médios gasta praticamente um deles em habitação, água e luz, sobrando muito pouco para consumo, educação, formação ou transportes.
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Pedro Fonseca
Outra aposta da tua candidatura é a mobilidade. Nesta área, o que pretendes para Felgueiras?
Marta Rocha
Pretendo que o transporte público passe a ser uma opção para todos — não apenas para quem não tem carro, mas também para quem o tem e possa optar por deixá-lo em casa.
Noutros concelhos é comum as pessoas deslocarem-se de autocarro ou metro, mas em Felgueiras isso não acontece. No ano passado, a CIM do Tâmega e Sousa criou o passe ferroviário verde. Felgueiras não pode usufruir dele porque não tem ferrovia. No entanto, o Ministro dos Assuntos Parlamentares, que esteve cá no último sábado, assumiu o compromisso com esta candidatura de trazer a ferrovia para Felgueiras.
Um dos problemas graves de Felgueiras é a mobilidade interna — não há interface entre concelhos. Uma pessoa que vive em Felgueiras, por exemplo, não consegue ter transporte para trabalhar em Amarante.
E mesmo dentro do concelho, há pessoas que não se conseguem deslocar ao fim de semana para atividades, inclusive promovidas pelo município, porque não têm viatura própria. O transporte público, além de sustentável e económico, reduz o isolamento das freguesias.
Pedro Fonseca
Agora, um conjunto de perguntas de resposta rápida.
O que preferes: tapar buracos nas estradas com alcatrão ou com promessas?
Marta Rocha
Com mobilidade e transportes públicos. Se tivermos transportes alternativos, o desgaste das estradas é menor.
Pedro Fonseca
Preferes um passeio no centro da cidade de Felgueiras ou na Lixa, ou pelas freguesias?
Marta Rocha
Pelas freguesias.
Pedro Fonseca
Indústria ou comércio local?
Marta Rocha
Comércio local para comprar, sem dúvida; indústria para trabalhar.
Pedro Fonseca
Vinho verde ou pão de ló?
Marta Rocha
Pão de ló — esse é fácil.
Pedro Fonseca
Conseguias passar um dia sem telefone?
Marta Rocha
Conseguia, perfeitamente.
Pedro Fonseca
Se Felgueiras fosse uma música, qual seria?
Marta Rocha
Uma música dos Os Quatro e Meia, em bom português e com um ritmo que prometa.

Pedro Fonseca
Faz falta um pavilhão multiusos para Felgueiras?
Marta Rocha
Sim. Felgueiras não tem um equipamento cultural de relevo para receber um determinado número de pessoas. Se eu fosse um artista conhecido, teria dificuldade em encontrar um espaço para um concerto aqui.
Esse multiusos poderia também servir como pavilhão desportivo e centro de congressos — outra necessidade que existe.
Pedro Fonseca
Imaginavas que esse espaço pudesse receber, por exemplo, uma feira de calçado ou de componentes para calçado?
Marta Rocha
Sim, muito interessante. A própria associação empresarial teria condições para dinamizar eventos e as associações locais — recreativas, culturais ou desportivas — também poderiam utilizar o espaço. E eu gostaria de apoiar a criação de modalidades que ainda não existem em Felgueiras, como ginástica rítmica, patinagem artística, andebol e voleibol.
Pedro Fonseca
Marta, o João é um jovem felgueirense qualificado — tem licenciatura e mestrado. Como criar oportunidades para que fique em Felgueiras?
Marta Rocha
Eu fui esse João há 20 anos. Quando terminei a licenciatura e vim para Felgueiras fazer o estágio, fui ao centro de emprego apresentar o meu currículo e a funcionária perguntou-me para que servia uma licenciatura em Direito. Percebi logo a realidade: Felgueiras não tinha oportunidades para jovens qualificados.
As pessoas estudam, os pais investem na sua educação, mas depois não há oportunidades na sua terra. Quero mudar isso. É possível, articulando investidores com jovens com ideias, criando tech hubs — espaços físicos ou virtuais para promover startups — e dando-lhes mentoria, formação e acesso a investidores.
Pedro Fonseca
Felgueiras daqui a quatro anos será…?
Marta Rocha
Felgueiras daqui a quatro anos não vai ficar para trás.
Pedro Fonseca
Qual seria a tua primeira medida simbólica como presidente da câmara?
Marta Rocha
A reabilitação do Centro Social dos Funcionários do Município. O sucesso de uma câmara depende, em 80% ou 90%, das pessoas que lá trabalham — e elas têm de ter boas condições.
Pedro Fonseca
Se pudesses resolver apenas um problema em Felgueiras, qual seria?
Marta Rocha
O saneamento básico.
Pedro Fonseca
Marta, uma mensagem direta aos felgueirenses: porque é que eles devem confiar em ti?
Marta Rocha
Eu não peço que confiem em mim ou na candidatura — apenas que me deem a oportunidade de mostrar, com trabalho e competência, as nossas propostas em prática.
Pedro Fonseca
Para terminar: depois desta conversa, um café ou uma caminhada por Felgueiras?
Marta Rocha
Uma caminhada.
Pedro Fonseca
Marta, obrigado por esta conversa e por partilhares a tua visão.