Felgueiras lidera presença nacional na Lineapelle, com destaque para projetos financiados pelo PRR.
A Lineapelle, principal feira internacional dedicada à pele, materiais e componentes para o setor do calçado, arrancou hoje em Fiera Milano Rho, na sua 108.ª edição, reunindo mais de mil expositores de 38 países. O certame prolonga-se até 17 de setembro.
Segundo a organização, esta edição reafirma a posição da Lineapelle “como o evento-chave para uma cadeia de fornecimento que continua a evoluir num contexto económico particularmente desafiante”. A feira conta com 1.029 expositores, distribuídos por uma área de exposição de cerca de 39.000 metros quadrados, dos quais 54% são italianos e 46% provenientes de 38 países, com destaque para a forte representação europeia, seguida pela China, Turquia e França.
Portugal está representado na Lineapelle 2026 por 29 empresas, das quais doze são de Felgueiras.
Empresas de Felgueiras presentes na Lineapelle 2026:
- Combocal
- Solpré
- Real Step
- Exporsola
- Isi Soles
- Itaflex
- Vapesol
- Atlanta
- Bolflex
- Marqsol
- Tectex
- Poleva Termoconformados, SA
Restantes empresas portuguesas presentes na Lineapelle 2026:
- For Ever (Vila Nova de Gaia)
- Dias Ruivo (Vila Nova de Gaia)
- A Castro e Filhos (São João da Madeira)
- Curtumes Ibéria (Alcanena)
- Simaca (Santa Maria da Feira)
- Inducol (Santarém)
- Pionier Peles (Lousada)
- Multicouro (São João da Madeira)
- Aloft (Vila Nova de Gaia)
- Curtumes Boaventura (Alcanena)
- Asc Moldes (Oliveira de Azeméis)
- SSS (São João da Madeira)
- Codina Napa (Santa Maria da Feira)
- Derma-Leather, SA (Alcanena)
- Eduardo & Gaspar, Lda. (Maia)
- Joaquim Francisco Inácio Sucrs., SA (Alcanena)
- Vega Industries, SA (Vila Nova de Famalicão)
Segundo a organização, o número de expositores subiu significativamente desde a edição de fevereiro, que tinha sido fortemente afetada por perturbações logísticas causadas pelas competições dos Jogos Olímpicos de Inverno realizadas em Fiera Milano Rho, “mas ainda não recuperou totalmente, sobretudo no setor de acessórios e componentes”.
O clima económico continua a afetar a cadeia de fornecimento, reduzindo os volumes de produção e comércio. Ainda assim, a organização sublinha que “a resposta forte e confiante dos expositores é, por isso, particularmente significativa, com as maiores e mais consolidadas empresas a confirmarem a sua participação”. Do lado dos compradores, a organização destaca também o perfil internacional dos visitantes pré-registados, “com profissionais dos Estados Unidos, França, Alemanha, Espanha, Reino Unido, Índia e China particularmente bem representados”.
A edição decorre em simultâneo com a Simac Tanning Tech, feira internacional dedicada a máquinas e tecnologia para calçado, marroquinaria e curtumes, regressando também a Filo ao espaço de exposição da Lineapelle.
Portugal leva à Lineapelle a inovação do PRR
Para além da presença comercial das empresas, a indústria portuguesa do calçado vai apresentar em Milão os resultados de dois projetos de investigação e desenvolvimento financiados pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR): o BioShoes4All, em destaque na Lineapelle, e o FAIST, que estará em evidência na Simac Tanning Tech.
Segundo Luís Onofre, presidente da APICCAPS, “depois de três anos de investimento, investigação e desenvolvimento, é tempo de apresentar estas inovações aos compradores internacionais e de transformar o conhecimento criado em novas oportunidades de negócio”.
O BioShoes4All é apontado pela associação como o maior projeto colaborativo alguma vez desenvolvido pela indústria portuguesa do calçado nas áreas da bioeconomia, sustentabilidade e inovação industrial, tendo reunido 69 parceiros e mobilizado um investimento de cerca de 60 milhões de euros. Ao longo de quatro anos, o projeto gerou mais de 200 resultados científicos, tecnológicos e industriais, entre os quais materiais que incorporam resíduos de origem agroindustrial, novos couros e acabamentos de base aquosa, componentes reciclados ou recicláveis, borrachas com elevada incorporação de matérias-primas biológicas e processos destinados a reduzir a utilização de energia, água e produtos químicos.
Segundo a APICCAPS, várias destas soluções já ultrapassaram a fase de laboratório e estão prontas para aplicação industrial, sendo a participação na Lineapelle uma oportunidade de as apresentar diretamente a marcas, fabricantes, designers e compradores internacionais. “O objetivo do setor é claro: queremos que Portugal seja a grande referência internacional no desenvolvimento de soluções sustentáveis para a indústria do calçado”, sublinha Luís Onofre. “Temos empresas, centros de conhecimento e talento altamente qualificado. O desafio passa agora por levar estas soluções ao mercado e conquistar a confiança das principais marcas internacionais.”
Já na Simac Tanning Tech, feira de referência para máquinas e tecnologias destinadas às indústrias do calçado, marroquinaria e curtumes, estará em evidência o projeto FAIST – Fábrica Ágil, Inteligente, Sustentável e Tecnológica. Liderado pela Carité, empresa sediada em Felgueiras, o FAIST representa um investimento próximo dos 50 milhões de euros e foi criado para reforçar a capacidade tecnológica e produtiva do cluster português, envolvendo o desenvolvimento de 34 novos produtos, processos e serviços, entre equipamentos avançados, linhas automáticas, sistemas digitais e unidades-piloto para testar e validar novas tecnologias. Segundo a APICCAPS, as soluções que serão levadas à Simac procuram responder a alguns dos principais desafios da indústria, nomeadamente produzir séries pequenas e personalizadas com maior eficiência, automatizar operações exigentes, melhorar as condições de trabalho e reduzir o consumo de matérias-primas e energia.
A apresentação dos resultados do BioShoes4All e do FAIST em Milão assinala, segundo a associação, uma nova etapa para a indústria portuguesa. Concluído o ciclo de investigação e desenvolvimento apoiado pelo PRR, o objetivo passa agora por levar as soluções ao mercado, conquistar clientes internacionais e transformar a inovação em negócio.
Setor acelera exportações em Itália
O setor português do calçado iniciou setembro “a toda a velocidade”, ao integrar uma dezena de iniciativas no exterior, no âmbito de um projeto da APICCAPS em parceria com a AICEP, com o apoio do programa Compete 2030. “Em apenas dois meses, praticamente 100 empresas portuguesas integrarão ações em mercados internacionais, confirmando o dinamismo e a ambição exportadora do setor”, destaca Luís Onofre.
Segundo a associação, a presença em Itália é particularmente significativa, com mais de 70 empresas portuguesas divididas por três feiras: MICAM, com 32 empresas, Lineapelle, com 31, e Simac, com 8.
O programa de conteúdos da Lineapelle inclui ainda um conjunto de conversas e encontros sobre temas centrais para o setor, da sustentabilidade e inteligência artificial à investigação de materiais e rastreabilidade. Entre as sessões agendadas contam-se “The Rebellious Surface”, sobre o valor simbólico da pele na moda e na cultura, e “Make Way for the New Generation”, uma conversa sobre as oportunidades para a nova geração de designers num mercado incerto. Está ainda prevista uma sessão dedicada à Diretiva do Greenwashing, que analisa os efeitos da Diretiva europeia 2024/825, transposta em Itália através do Decreto Legislativo n.º 30/2026, com entrada em vigor a 27 de setembro.
No plano formativo, a Lineapelle apresenta uma série de colaborações com escolas de moda internacionais, incluindo o IED de Turim e São Paulo, a Universidade Iuav de Veneza, o Instituto Modartech, a Accademia NAMI e o Beijing Institute of Fashion Technology. A edição acolhe ainda a cerimónia de entrega do Next Gen Leather Designers Award, primeiro concurso promovido pela Lineapelle e pela Piattaforma Sistema Formativo Moda, dedicado a estudantes finalistas de escolas de moda italianas.
Os dados mais recentes do setor, também divulgados pela Lineapelle, mostram que a indústria transformadora italiana de curtumes registou, no primeiro semestre de 2026, uma quebra de 6,4% no volume de negócios e de 5,2% nos volumes de produção, face ao período homólogo. As exportações italianas de pele caíram 4,9% em valor, com Portugal a surgir como um dos poucos mercados de destino estáveis, ao lado de França (+8%), Turquia (+2%) e Camboja (+40%).