Natural das Cerdeirinhas, Vieira do Minho, João David Silva chegou a Felgueiras em 1984, sem imaginar que seria aqui que construiria a sua vida. O que começou como uma aventura tornou-se numa trajetória de sucesso, com a fundação de três negócios que hoje são referência no concelho: o restaurante João da Reta, a churrasqueira takeaway com o mesmo nome e a David Vinhos, uma das maiores distribuidoras de vinho do país, que em 2024 registou uma faturação de 14 milhões de euros e vendeu cerca de 3,1 milhões de garrafas. Quem passa ao lado do seu cash & carry dificilmente imagina a verdadeira dimensão do espaço, com 4.400 m² dedicados ao vinho. Pai de três filhos e homem de convívios, o que mais valoriza é o tempo com a família e os amigos. Nesta entrevista, João David Silva percorre a sua história, desde os primeiros passos numa cozinha até se tornar o empresário de sucesso que é hoje, abordando os desafios, conquistas e o que lhe reserva o futuro.
Como é que veio parar a Felgueiras?
Aos 12 anos, comecei a trabalhar numa cantina de um parque industrial em Celeirós, em Braga. Depois, passei por mais dois restaurantes do mesmo patrão e, mais tarde, mudei para outro. Foi aí que conheci um senhor que trabalhava em Felgueiras e que, na altura, era cozinheiro no restaurante Brasão. Ele gostava do meu trabalho – eu trabalhava numa churrasqueira – e convidou-me para vir para Felgueiras. E assim vim para cá.
Quando é que abriu o seu primeiro negócio?
Depois de ter estado em três restaurantes, aos 24 anos estabeleci-me no sítio em que estou, numa altura em que o João da Reta ainda não era João da Reta, era Paraíso da Cidade. Já lá vão 34 anos.
Como é que surgiu a oportunidade?
Era um espaço que já se encontrava aberto. O proprietário, antes, já me tinha convidado para assumir a gestão, algo que recusei. Mais tarde, como as coisas não estavam a correr bem, veio ter comigo e pediu-me para ir para lá. Respondi “Senhor Oliveira, não vou como funcionário. O senhor conhece mais ou menos as minhas condições” Ele então disse: “Se não vai como funcionário, eu vendo-lhe o negócio”. E assim foi. Há 34 anos, passou-me o restaurante e, desde então, tem sido esta a minha caminhada.

“Antigamente, abríamos às 7 da manhã e fechávamos, como costumo dizer, quase quando já não havia clientes.”
João David Silva
Quando abriu, quais eram as especialidades?
Na altura, o espaço funcionava como um restaurante, mas eu transformei-o num snack-bar. Trabalhava bastante durante a noite e, felizmente, também ao almoço e ao jantar. No entanto, o ponto forte era o serviço de snack-bar até de madrugada. Hoje, o conceito mudou um pouco e está mais focado no restaurante. Antigamente, abríamos às 7 da manhã e fechávamos, como costumo dizer, quase quando já não havia clientes. Atualmente, o horário é diferente, abrimos apenas para o almoço e jantar.
Hoje, quais são os pratos de destaque?
Atualmente, a nossa oferta é muito baseada em grelhados. Mantemos alguns pratos fixos e tradicionais, como as feijoadas, mas o foco principal são os grelhados.

“Os vinhos, primeiro, começaram como uma “brincadeira”, engarrafava apenas para o restaurante. Mas, rapidamente se tornou num negócio”
João David Silva
A partir daí, como é que entrou no negócio dos vinhos?
Antigamente, engarrafávamos os vinhos diretamente nos lavradores. Enchíamos as garrafas e trazíamos para vender. A certa altura, um senhor disse-me que tinha um familiar que não ia engarrafar na Casa das Hortas, porque não chegaram a acordo quanto ao preço, mas que o vinho era muito bom. Fui à Casa das Hortas, que é em Santa Marinha do Zêzere, Baião, e engarrafei 15 pipas. Havia lá um senhor, a quem chamavam “Cabeça de Gaio”, de nome António Azeredo, que me sugeriu montar negócio com o seu filho. Disse-me: “Nós temos a marca. Engarrafamos o vinho e podia começar a comercializá-lo”. Fui amadurecendo a ideia e assim nasceu o negócio dos vinhos.
Quando é que nasce a David Vinhos?
Os vinhos, primeiro, começaram como uma “brincadeira”, engarrafava apenas para o restaurante. Mas, rapidamente, se tornou num negócio, ainda que pequeno. Durante vários anos, comercializávamos apenas os vinhos da Casa das Hortas e da Adega da Penajoia. Com o tempo, percebemos que era necessário alargar o portfólio e, à medida que a empresa foi crescendo, tornou-se inevitável dar um passo maior. Foi então que surgiu a necessidade de criar a David Vinhos.
Onde são as primeiras instalações?
As primeiras instalações foram na reta, num edifício ao lado da farmácia. Depois, mudámo-nos para as Tomadas, para um armazém alugado. Há cerca de 29 anos estabelecemo-nos na Longra, num armazém que tinha cerca de 1000m², onde o negócio começou a evoluir significativamente e rapidamente se tornou pequeno para as necessidades. Foi então que surgiu a oportunidade de mudar para as atuais instalações, há 16 anos, que têm cerca de 4400 m². Quando trouxemos a mercadoria lembro-me de pensar: “Isto não será demasiado grande?”. Mas, felizmente, o negócio continuou a crescer. Fechámos 2024 com um volume de negócios de 14 milhões de euros e mais de três milhões e cem mil garrafas vendidas.

Quantas referências têm? Qualquer pessoa pode vir ao cash & carry comprar vinho?
Temos cerca de 4 mil referências de bebidas espirituosas e vinhos. A David Vinhos está, em grande parte, focada no setor da restauração, sobretudo de Aveiro para cima. A nossa equipa tem 38 pessoas e contamos com 12 comerciais, sendo que 10 deles trabalham exclusivamente com restaurantes. Além disso, trabalhamos com supermercados, armazenistas, garrafeiras e pequenos distribuidores, abrangendo várias áreas do setor. Felizmente, a David Vinhos consolidou-se como uma empresa de destaque a nível nacional na distribuição de vinhos. Mas qualquer pessoa pode comprar o seu vinho no nosso cash & carry. Na realidade, é apenas uma garrafeira em grande escala.
Como surgiu a ideia de lançar o Foral de Felgueiras?
O Foral de Felgueiras foi lançado há cerca de 15 anos. O vinho foi desenvolvido em conjunto com um enólogo, o Rui Madeira, dentro do perfil que eu pretendia. Até tenho uma história curiosa sobre este processo. Eu questionei o engenheiro sobre o facto de, à entrada da Câmara de Felgueiras, o brasão ter apenas quatro castelos, enquanto no meu rótulo estavam representados cinco. Depois foi-me explicado que o brasão na Câmara é do tempo em que Felgueiras ainda era vila, desde que é cidade tem cinco. Hoje, temos o Foral de Felgueiras branco, rosé, alvarinho e, se calhar, ainda este ano sai um espumante bruto.
Além do restaurante e da garrafeira, surgiu o takeaway na pandemia?
O takeaway acabou por ser uma surpresa. Sempre foi um sonho meu, por já ter trabalhado em churrasqueiras – tanto em Braga como em Felgueiras, onde passei pela antiga Churrasqueira Oliveira, mas nunca imaginei que o viria a concretizar. Com a pandemia e os restaurantes encerrados, comecei a pensar: “Porque não abrir um restaurante com serviço de takeaway?”. Comecei a procurar um espaço com bons acessos e condições e decidimos avançar em outubro de 2020. No entanto, não estávamos preparados para a enorme adesão. Éramos apenas eu, os meus dois filhos e a minha esposa. Começaram a formar-se filas gigantes à porta, com mais de 30/40 pessoas, até a GNR apareceu para garantir que tudo estava dentro das normas de segurança. Felizmente, as coisas estão a funcionar bem.

“Acima de tudo, o segredo está em gostar do que se faz. Além disso, ter uma família que nos apoia faz toda a diferença, bem como uma equipa de trabalho capaz.”
João David Silva
Qual é que considera o principal segredo para o sucesso dos seus negócios, especialmente dos vinhos, que é o maior?
Acima de tudo, o segredo está em gostar do que se faz. Sempre. Como costumo dizer, posso deitar-me maldisposto, com dor de cabeça ou cansado, mas no dia seguinte acordo sempre com vontade de trabalhar ainda melhor do que no dia anterior. Seja no restaurante ou nos vinhos, o importante é ter paixão pelo que se faz. Além disso, ter uma família que nos apoia faz toda a diferença, bem como uma equipa de trabalho capaz.
Conta muito com a família para manter os seus negócios?
Sim, casei aos 24 anos, precisamente na altura em que assumi a gestão do restaurante. Confesso que a minha vinda para Felgueiras não foi por amor, como acontece com algumas pessoas. Vim numa aventura…
Mas já é felgueirense?
Sim, sou mais felgueirense do que muitos. Já estou aqui há mais de 40 anos. Vim numa aventura, em 1984. Na altura, ganhava 17 contos com dormida em Braga e aceitei vir para Felgueiras por 17 contos e meio. O meu patrão ainda me ofereceu 18 contos para eu ficar, mas decidi arriscar. Fui trabalhando em várias casas até me estabelecer, aos 24 anos. Já namorava nessa altura – a minha esposa é de Lagares.
Os seus filhos trabalham nas suas empresas?
A minha filha mais velha trabalha na área dos vinhos e também ajuda ao fim de semana no restaurante. O meu filho estudou Gestão e Marketing e a ideia era que viesse trabalhar na empresa, mas acabou por ser apanhado no meio da pandemia e ficou na churrasqueira, onde agora está à frente do negócio. A minha filha mais nova está a terminar o mestrado em Gestão Hoteleira e Marketing e, provavelmente, também vai trabalhar por aqui.
E a sua esposa?
A minha esposa não era cozinheira, mas acabou por se adaptar ao longo dos anos. Durante a pandemia, dividimo-nos entre diferentes tarefas, e ela ficou na cozinha com outra funcionária. Com o tempo, essa senhora reformou-se e a minha esposa assumiu a função.
Ao longo destes anos, qual foi o momento mais marcante, tanto pela positiva como pela negativa?
Tenho muitas histórias, tanto no restaurante como na área dos vinhos, e felizmente, todas essas experiências foram positivas. Fiz muitos amigos ao longo do caminho, o que é algo que valorizo bastante. O período mais negativo, sem dúvida, foi a pandemia.
Durante a pandemia, a restauração sofreu bastante, mas no setor dos vinhos também sentiu alguma quebra?
Sim, mas não tanto como alguns dos nossos concorrentes, que trabalhavam exclusivamente com restaurantes e viram o seu negócio quebrar 100%. No nosso caso, felizmente a revenda continuou a funcionar, o que ajudou a equilibrar as perdas. Mesmo assim, registámos uma quebra de cerca de 50%. Curiosamente, durante a pandemia, o consumo doméstico aumentou. As garrafeiras e supermercados venderam mais vinhos e, muitas vezes, vinhos de gama superior.

Na altura, tinha no serviço de takeaway uma oferta de vinho nas encomendas, certo?
Muita gente estava confinada e não queria sair. Decidimos, então, fazer entregas sem qualquer custo num raio de Felgueiras. Organizámos tudo: tínhamos os nossos carros e até envolvi alguns familiares para ajudarem com as entregas. Além disso, lancei a ideia a alguns bons parceiros para me ajudarem a criar menus que incluíssem a oferta de garrafas de vinho. Assim, passámos a incluir em cada menu de 15/20 euros uma garrafa.
Que conselho é que daria a um jovem que pretendesse abrir uma empresa no seu ramo de atividade?
As coisas mudaram muito. Eu comecei a trabalhar aos 12 anos e, aos 24, já me sentia totalmente preparado para gerir um negócio. Na minha opinião, para montar uma empresa, é essencial ter conhecimento sobre o setor. Não basta ter dinheiro ou alguém que apoie financeiramente. Se não houver um verdadeiro conhecimento da área, é meio caminho andado para o insucesso. Além disso, é fundamental gostar do que se faz. No meu caso, seja no restaurante ou na churrasqueira, sempre trabalhei com paixão. Aliás, recentemente, a minha esposa teve problemas de saúde e, durante um ano, fui eu que assumi a cozinha.
Tenho à minha frente um empresário que só nos vinhos fatura 14 milhões e vai para o restaurante cozinhar!
O gosto pelo trabalho faz toda a diferença. Mas não é só isso – também é uma obrigação. Tenho um compromisso com os clientes e, no fim do dia, temos de fazer pela vida e respeitar quem confia em nós. No comércio de vinhos, um vendedor pode faltar, mas há sempre outro para substituir. Já no restaurante, não, os clientes entram pela porta e temos de estar preparados para os receber bem, sempre.
Como é que imagina as suas empresas daqui a 10 anos?
Acredito que o negócio está bem estruturado para continuar a funcionar da mesma forma. Felizmente, é para evoluir. A intenção é que, quando me reformar, os meus filhos garantam a continuidade dos projetos. Afinal, são negócios familiares.
O que é que Felgueiras não tem, mas que, na sua opinião, deveria ter?
Acho que Felgueiras, ultimamente, tem evoluído bastante. Um bom exemplo disso é a nova zona industrial que está a ser construída, que vai atrair empresas de fora e de outros setores além do calçado. Na minha opinião, o concelho continua muito focado no calçado. É importante diversificar, para criar oportunidades diferentes e empregar outro tipo de mão de obra, mais qualificada.
