Recém-reeleito presidente da concelhia do PSD Felgueiras, João Sousa traça um retrato crítico do concelho e assume a ambição de construir uma alternativa política credível. Nesta entrevista, aborda temas como habitação, salários, obras e economia, apontando falhas à atual governação e defendendo “novos tempos” para Felgueiras.
Foi reeleito presidente da Comissão Política do PSD Felgueiras no passado dia 28 de fevereiro. Que prioridades definiu para este novo mandato à frente da concelhia?
O PSD nos últimos anos atravessou o momento mais difícil desde o 25 de abril. É necessário continuar a envolver os eleitos, militantes e simpatizantes na revitalização do partido, pessoas com experiência, mas particularmente uma nova geração com uma visão completamente diferente para o futuro.
A proximidade aos autarcas, às populações e a resolução dos problemas concretos dos felgueirenses são as nossas maiores motivações. Revemo-nos nos nossos autarcas e queremos fazer um trabalho de proximidade e de benefício das populações que representam. É também importante o trabalho que resultará do Gabinete de Estudos que já prepara uma reflexão que dará origem a um programa para novos tempos em Felgueiras e a interligação com as estruturas de Juventude, de Trabalhadores e das Mulheres do PSD.
Como descreve hoje o estado do PSD em Felgueiras? O PSD e os seus militantes já convivem bem com o período do “ribeirismo”?
O PSD caminha para a estabilização da militância e da harmonização de um projeto comum para novos tempos em Felgueiras. Estamos a envolver a experiência dos militantes mais antigos e a apostar forte na Juventude nas várias estruturas do PSD e nas freguesias. Destaco que há uma nova geração com pensamento diferente, com novas energias. Contamos também com o apoio de militantes de referência que foram líderes do PSD Felgueiras e candidatos à Câmara e Assembleia Municipal em diversos momentos.
Parece-me que a esmagadora maioria de antigos dirigentes e candidatos continuam a rever-se no PSD como verdadeira e única alternativa ao atual Executivo e consideram que a passagem pela governação da Câmara foi curta, num período marcado pela intervenção da Troika, com alguns erros cometidos, e que acabou penalizada por uma ”tempestade perfeita”.
No PSD cabem todos os militantes que fazem parte do nosso património. Receberemos de braços abertos quem quiser contribuir para uma alternativa de futuro e dar contributos. A nossa vontade não é só ser a alternativa, mas sim o futuro de Felgueiras. Estamos a trabalhar com todo o empenho e dedicação para que nas próximas autárquicas sejamos o espelho dos felgueirenses.
O que falhou ou o que é que poderia ter sido feito melhor pelo PSD nas últimas autárquicas?
Depois de dois mandatos extremamente difíceis para o PSD fomos a eleições e não conseguimos passar a mensagem. Necessitávamos de mais tempo para preparar melhor as candidaturas, o projeto concelhio e dar-lhes mais visibilidade, porque tínhamos um espaço político ocupado pela liderança populista de Nuno Fonseca. Lembro que vivemos uma sequência de eleições que atrapalhou todo o processo e foi necessário criar um projeto autárquico de raiz. Considero que a Marta Rocha foi corajosa ao candidatar-se à Câmara Municipal, uma vez que seria mais confortável e mais fácil esperar quatro anos. Hoje, tem uma notoriedade que não tinha na altura.
Para nós, o mais importante é que não se desista e sentimos que a maior parte viu as últimas eleições como uma etapa que não correu bem, mas que será a semente das vitórias futuras!

A maioria do “Sim, Acredita” está bem consolidada. O PSD acredita que é possível mudar esse cenário nas próximas autárquicas?
Clara e inequivocamente. O estado de espírito das estruturas do PSD e a qualidade dos nossos eleitos é garantidamente uma lufada de otimismo e confiança no futuro!
Temos equipas bem preparadas e qualificadas e outras que, no momento certo, estarão disponíveis para integrar o nosso projeto de mudança.
Com o fenómeno político instalado, o PSD deixou espaço aberto ao Sim Acredita que o ocupou, mas está na hora de o recuperarmos. O atual Executivo que se divide na Assembleia Municipal nas bancadas dos Socialistas e do Livre faz parte da Governação de mais de 40 anos do nosso concelho. Apesar de vivermos num concelho com uma forte dinâmica industrial, continua pobre, com baixos rendimentos e perde na comparação com os concelhos vizinhos do Tâmega e Sousa em diversas áreas. Logo, tornam-se necessárias políticas diferentes para obtenção de resultados diferentes que garantam qualidade de vida aos felgueirenses.
Nem tudo está mal no atual Executivo, mas também nem tudo está tão bem como tentam pintar! Continuam por resolver muitos problemas: rede viária, saneamento, degradação de equipamentos, salários baixos e falta de formação e qualificação dos trabalhadores. Comprar ou arrendar uma casa a preços razoáveis em Felgueiras é impossível e necessitamos de procurar soluções para a transformação social e económica que atravessamos.
No plano meramente teórico, admite ser candidato a presidente da Câmara Municipal de Felgueiras nas próximas eleições autárquicas?
O PSD tem uma excelente equipa, muitos e bons quadros que enriquecerão as equipas nas próximas eleições autárquicas. Desejo sinceramente que, quando o processo se iniciar, a escolha dos melhores candidatos seja uma boa dor de cabeça. Será sinal de que o projeto que o PSD apresentar está bem suportado por quadros que garantam um desempenho eficaz e o futuro da nossa terra.
A minha motivação é ajudar a robustecer o partido. Numa situação normal já teria dado o meu contributo, mas o apelo da militância fez-me aceitar a liderança de uma equipa fantástica, versátil e talentosa que conduza a uma mudança geracional para o futuro.
Na sua opinião, qual é hoje o maior problema do concelho de Felgueiras?
O concelho atravessa uma grave crise socioeconómica sendo desafiante a necessidade de reinvenção do setor que foi o “ganha-pão” de Felgueiras durante décadas. Conjuga-se com a falta de mão de obra, os baixos salários dos trabalhadores e a necessidade de formação e qualificação dos nossos ativos para não serem marginalizados pela enorme transformação que o mundo atravessa e pela falta de soluções para os jovens mais qualificados.
Do ponto de vista social é extremamente preocupante não haver as creches necessárias para as nossas crianças nem soluções para os idosos que necessitam de lares e de qualidade de vida na idade sénior.
Verdadeiramente preocupante é a dificuldade em arrendar ou comprar casa em Felgueiras. Os preços são proibitivos e estão a empurrar as pessoas para as freguesias periféricas e para fora do concelho.
No entanto, os felgueirenses têm o ADN de lutadores e de vencedores e conseguirão ultrapassar as dificuldades porque o potencial do nosso concelho e das suas gentes é imenso. O PSD contribuirá para apoiar o que de bem for feito e apontará alternativas aos caminhos errados que o atual Executivo siga. Aliás, fazemo-lo com frequência.

A habitação foi uma das bandeiras da Coligação “Agora Felgueiras” nas últimas autárquicas. O PSD Felgueiras vai continuar a fazer da habitação uma das suas bandeiras?
Sim. Lamentavelmente o atual Executivo perdeu uma oportunidade que a maioria dos outros concelhos aproveitou. Todos os dias lemos na comunicação social que há Municípios a entregar casas novas a custo controlado e em Felgueiras zero.
No devido tempo defendemos a descentralização da construção para garantir coesão territorial, defendemos a recuperação de habitação, o apoio a cooperativas, a recuperação de habitação nos centros cívicos das freguesias e várias outras medidas.
Defendemos que, se havia matéria em que se justificava endividamento municipal, seria na construção de habitação a custo controlado, uma vez que a reabilitação da habitação social está a decorrer.
Recentemente, a Câmara decidiu expropriar terrenos no valor de 2,5 milhões de euros para começar a fazer algo nesta área e avançar com o multiusos. Mais vale tarde que nunca! Desde 2024 que andamos a defender investimento em habitação e finalmente serão dados os primeiros passos. Criticámos a inércia e as más opções, aliás, a habitação foi um dos nossos principais temas de campanha, mas agora estaremos ao lado de soluções, mesmo que tardias ou curtas. O mesmo raciocínio se aplicará à construção do multiusos, outra bandeira nossa.
O PSD tem criticado o estado da rede viária de Felgueiras, e os buracos nas estradas. O que é que o PSD teria feito de diferente nesta matéria?
Manutenção e investimentos ao longo dos mandatos. Ou seja, o Sim Acredita quis impressionar e fazer várias obras no 8º ano de exercício da sua governação. Tentou demonstrar que fazia tudo ao mesmo tempo e em todo o lado. Antes das eleições, as obras foram caóticas, depois das eleições continuam a causar o caos.
Teria sido muito mais importante investir no saneamento e na recuperação da rede viária desde o primeiro ano de governação. A rede viária não se teria degradado tanto e os gastos seriam menores.
Acrescentamos que se exige maior qualidade das obras e que não sejam tormentosas. Algumas obras são lamentáveis pela forma como são executadas, não respeitando a mobilidade de moradores, comerciantes, peões e condutores. Exige-se um planeamento a longo prazo para evitar todos estes constrangimentos e consequências.
Um projeto que gostaria de ver realizado em Felgueiras nos próximos anos?
Do ponto de vista social, uma verdadeira rede de resposta de creches e de lares para idosos.
Do ponto de vista económico a reinvenção do setor do calçado e a captação de investimento de empresas de serviços das áreas de altas tecnologias, saúde, defesa, investigação, que sejam claramente diferenciadoras e que paguem bons salários. Transformar Felgueiras numa referência nacional na modernização da indústria do calçado e têxtil, apostando e combinando a economia circular (reutilização de resíduos industriais), a digitalização das pequenas e médias empresas e a formação técnica especializada.
Um projeto de formação e qualificação dos nossos trabalhadores que os prepare para os desafios futuros, à semelhança do que está a ser feito na Maia, e espaços de apoio ao empreendedorismo e à criação de novas empresas.
O que falta ao PSD para voltar a ganhar a Câmara de Felgueiras?
Demonstrar aos eleitores que o seu projeto é válido, confiável, inovador e coeso e que Felgueiras precisa de avançar para novos tempos.