Recém-eleito presidente da direção da Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Felgueiras, Filipe Gonçalves assume a liderança da corporação numa nova fase, após a vitória da Lista A nas eleições realizadas em janeiro deste ano, onde reuniu mais de 65% dos votos num ato eleitoral participado.
A nova direção chega com o compromisso de dar continuidade ao trabalho desenvolvido, mas também de responder a desafios exigentes — desde a sustentabilidade financeira ao recrutamento de novos voluntários e ao reforço dos meios operacionais.
Numa altura em que os bombeiros continuam a desempenhar um papel central no socorro à população, Pedro Fonseca, diretor do Felgueiras Magazine foi ao quartel conversar com Filipe Gonçalves e perceber qual é o estado atual da corporação e que futuro está a ser preparado.
Filipe, vamos começar pela parte financeira – até porque foi muito falado na campanha eleitoral. Como é que descreves a situação financeira da Associação Humanitária?
A nossa associação tem uma situação financeira muito boa.
Muito boa no sentido em que não temos dívidas a fornecedores, temos dinheiro em caixa, temos dinheiro em depósitos a prazo. Fizemos um investimento, no final do ano passado, na ordem dos 300 mil euros, que está pago.
Há um dos investimentos, que é o VFCI, que é comparticipado pela CIM, mas nós ainda não recebemos a comparticipação da CIM. No entanto, o investimento está pago — não tivemos à espera da comparticipação para efetuar o pagamento.

O apoio do tecido empresarial de Felgueiras e também das quotas dos associados são importantes para a sustentabilidade dos bombeiros?
Muito importantes. Todo o apoio que injete dinheiro na associação, seja um sócio-empresa, seja um sócio particular, é sempre importante, porque estas associações vivem de donativos e vivem sempre com as dificuldades inerentes aos corpos de bombeiros, e não somos só nós.
Pegando nisso que disseste, os apoios do Estado não são suficientes para garantir o funcionamento da corporação? Continua a ser indispensável o apoio das empresas, dos sócios, da Câmara?
Claro que os apoios são importantes. No caso do Estado, o Estado, para além de ser parceiro, também é cliente. Portanto, é um dos nossos principais clientes — nós fornecemos serviços para o Estado.
Em termos de apoio do Estado, há um apoio que era muito importante e que fazia muito jeito às associações de bombeiros, que é a questão do IVA dos combustíveis. Estamos numa situação em que o combustível está a dois euros o litro do gasóleo e nós não conseguimos deduzir o valor do IVA. Fica o repto — se alguém responsável ouvir a entrevista — para o Estado permitir que consigamos deduzir o valor do IVA nos combustíveis.
Quanto ao município, o município é parceiro — obviamente que é parceiro. Não temos razão de queixa nenhuma, absolutamente nenhuma, do município. Mas acho que também temos que ter bom senso. Acho que temos que ter noção de que o Presidente de Câmara tem um orçamento para gerir e há uma panóplia de instituições e de associações aqui no concelho, todas dignas, todas de muito valor e todas merecem ser apoiadas pelo município.
Portanto, acho que devemos tentar ser autossuficientes, não estar sempre a chatear o mesmo parceiro.
Está aberta a recruta para novos bombeiros voluntários até ao final do mês de março. Qual é o ponto de situação hoje do voluntariado nos Bombeiros de Felgueiras? Há dificuldade em recrutar novos voluntários?
Não é uma questão de haver dificuldade em recrutar novos voluntários.
Obviamente que não fazemos escolas de 20 ou 25 recrutas como fazíamos antigamente. Atualmente aparecem 10, 12 recrutas.
Sabes que hoje em dia ser bombeiro voluntário é muito mais exigente — em termos técnicos, em termos de horas de serviço — e nem todos os jovens atualmente estão disponíveis para esse tipo de compromisso.
Ao nível dos recursos técnicos e também humanos dos Bombeiros de Felgueiras, existem em número adequado ao território? Há carências?
Em termos de proteção civil, nós temos o número adequado à nossa zona de ação. Queremos sempre mais, como é óbvio.
Em termos de proteção civil, é tudo muito volátil. Nós podemos ter, neste momento, 10 bombeiros disponíveis para fazer todo o tipo de serviços e, passados dois minutos, não temos nenhum disponível porque apareceu um incêndio, apareceu um acidente.
Portanto, é tudo muito volátil e tem que ser gerido. Não há fórmulas mágicas. Não vamos pôr aqui uma fórmula exata e vamos ter bombeiros para tudo e ambulâncias para tudo e não vai falhar nada. Não. É uma coisa que se vai gerindo com o tempo.

Que investimentos consideras prioritários para os próximos anos?
Para este ano e para este primeiro semestre, uma autoescada.
Nós até estamos a organizar uma Holi Color, que é no dia 14 de junho, em que o apuro vai reverter para a compra de uma autoescada.
Acho que é o equipamento que está a fazer mais falta neste momento. Obviamente que temos que renovar o parque das ambulâncias, porque vão ficando — não é que estejam velhas — mas já têm muitos quilómetros e têm que ser renovadas. Com o passar do tempo, vão aparecendo anomalias, vão ficando muito caras as manutenções. Mas, atualmente, o investimento prioritário será a autoescada.
O que é que significa para ti liderar uma instituição com mais de um século de história ao serviço da comunidade?
É um orgulho. Mas também me enche de muita responsabilidade, porque é uma casa que tem 127 anos, que sempre foi gerida muito bem pelos meus antecessores.
Isso traz-me muita responsabilidade, porque eu quero continuar essa linhagem de boa gestão.
Quando olhas para os homens e para as mulheres desta corporação a sair para uma ocorrência, o que é que sentes naquele momento?
Plena confiança. Temos os melhores bombeiros do mundo.
Há alguma história, algum momento vivido aqui nos Bombeiros de Felgueiras que te tenha marcado especialmente?
Tenho, tenho. Como tu sabes, eu já fui bombeiro. Entrei para esta casa como bombeiro. Há 20 ou 23 anos houve um acidente em São Jorge de Várzea em que eu fui como bombeiro, como socorrista. Não vou entrar em pormenores, porque os familiares podem ver a entrevista e não quero que associem, mas foi uma situação que me marcou pela brutalidade.
Se pudesses mostrar aos felgueirenses, em apenas um minuto, aquilo que realmente significa ser bombeiro voluntário, o que é que gostavas que eles vissem ou sentissem?
Eu acho que não dá para descrever, só sentindo. E confesso que agora sou presidente da associação, mas ainda tenho o bichinho do bombeiro. Quando a sirene toca, arrepio-me todo e dá-me vontade de entrar no carro, na ambulância, e ir socorrer quem precisa.
De facto, o espírito do voluntariado é mesmo esse: servir sem olhar a quem e sem estar à espera de contrapartidas. É servir porque se gosta da camisola e daquilo que se faz.
Uma última pergunta: se pudesses deixar uma mensagem direta aos felgueirenses sobre o trabalho dos bombeiros, qual seria?
Confiem. Temos os melhores bombeiros do mundo.