Felgueiras tem um título que ninguém ambiciona: é o concelho com a taxa de criminalidade mais alta de todo o Tâmega e Sousa. Terminou 2024 com 1424 crimes registados pelas autoridades, mais 81 do que em 2023. Em três anos, desde 2021, o número total de crimes cresceu cerca de 18%, passando de 1203 para 1424 ocorrências. Os números são do Instituto Nacional de Estatística (INE).
Em média, o concelho regista quase quatro crimes por dia.
A taxa de criminalidade acompanhou essa tendência: passou de 24,2 crimes por mil habitantes em 2023 para 25,8‰ em 2024, um aumento de cerca de 6,5%. No conjunto do Tâmega e Sousa, a taxa subiu de 21,3‰ para 22,1‰ – um crescimento na ordem dos 3,5%. Ou seja, Felgueiras não só está acima da média regional, como está a crescer quase ao dobro do ritmo da região.
Olhando para as categorias de crime, o retrato torna-se ainda mais claro. Os crimes contra as pessoas, entre 2023 e 2024, aumentaram de 382 para 409, uma subida de cerca de 7%. Dentro deste grupo, os crimes contra a integridade física mantiveram-se praticamente estáveis em termos globais (243 em 2024, 242 em 2023), mas as ofensas à integridade física simples subiram de 104 para 109 casos, mais 4,8%.
Há, no entanto, um sinal misto: os registos de violência doméstica recuaram de 114, em 2023, para 105, em 2024, uma redução na ordem dos 8%. Mas continuam muito acima dos 80 casos registados em 2021 – mais cerca de 30% em apenas três anos. É uma área em que qualquer descida é boa notícia, mas onde falamos de um fenómeno estrutural e amplamente subnotificado.
É nos crimes contra o património que o alarme toca mais alto. Entre 2023 e 2024, este grupo passou de 450 para 493 crimes, um aumento de 9,6%. Os furtos de veículo e em veículo motorizado cresceram de 83 para 93 ocorrências, mais 12% num ano. Os roubos por esticão e na via pública mantiveram-se nos 8 casos, mas inserem-se num quadro global em que a rua parece, para muitos, um lugar menos seguro.
Também os crimes contra a vida em sociedade – que incluem diversas formas de desordem, incivilidade e violações de regras de convivência – subiram, entre 2023 e 2024, de 330 para 351, um acréscimo de cerca de 6,4%. Em sentido inverso, alguns indicadores rodoviários recuaram: a condução com taxa de álcool igual ou superior a 1,2 g/l desceu de 223 para 215 casos (-3,6%), a condução sem habilitação legal passou de 73 para 69 (-5,5%) e os crimes previstos em legislação avulsa caíram de 129 para 119 (-7,8%).
Em termos regionais, Felgueiras representa quase 16% de todos os crimes registados no Tâmega e Sousa: 1424 num universo de 9022 ocorrências em 2024. Em 2023, essa fatia rondava os 15,4%. É um peso que não pode ser ignorado quando se fala de prioridades na afetação de meios policiais e na definição de políticas públicas.
Liderar pela pior razão: como é que Felgueiras se tornou o concelho mais inseguro da região?
Se os números já preocupavam, a realidade recente tratou de lhes dar rosto. Na madrugada de 7 de dezembro, uma sapataria na Avenida Doutor Leonardo Coimbra foi assaltada por dois suspeitos encapuzados que arrombaram a porta traseira e levaram diversos bens. Desde agosto, a mesma avenida tem sido palco de uma sucessão de roubos, com pelo menos três lojas assaltadas – uma delas duas vezes – e ainda uma tentativa de assalto a uma ótica.
Perante esta realidade, é legítimo perguntar: o modelo de policiamento de proximidade está a funcionar? Os comerciantes sentem a presença das forças de segurança nas horas e nos locais certos? Os moradores percebem patrulhas visíveis nos bairros, nas praças, nas zonas industriais? A resposta mede-se na sensação de segurança de quem fecha a porta do estabelecimento às dez da noite ou espera o autocarro num arruamento pouco iluminado.
A discussão sobre videovigilância entra inevitavelmente nesta equação. Câmaras em zonas comerciais ou espaços com histórico de ocorrências podem ser uma ferramenta útil, desde que enquadradas pela lei, com controlo democrático e avaliação de resultados. Não são uma solução mágica, mas podem funcionar como dissuasor.
O Conselho Municipal de Segurança (CMS) deveria ser o músculo articulador da resposta local: o espaço onde autarquia, forças de segurança, escolas, IPSS, associações e empresas olham para os dados, identificam padrões e definem prioridades. Perante os dados de 2024, exige-se saber: Que medidas saíram das últimas reuniões? O CMS já diagnosticou por que razão Felgueiras se desvia tanto da média regional?
Mais importante ainda – e talvez desconhecido de muitos felgueirenses – é o facto de o Conselho Municipal de Segurança ser permeável à voz dos cidadãos. O regulamento estipula que, em todas as reuniões, deve existir um período aberto ao público para a exposição de questões relacionadas com a segurança.
Este é o momento para a sociedade civil passar do desabafo nas redes sociais à ação cívica. Comerciantes lesados e cidadãos preocupados têm ali o palco legítimo para confrontar diretamente decisores políticos e responsáveis operacionais, exigir explicações e propor soluções.
O aumento da criminalidade em 2024 exige mais do que indignação passageira: exige uma estratégia de policiamento de proximidade, sustentada em dados e em diálogo com quem está no terreno.
Felgueiras lidera hoje a taxa de criminalidade no Tâmega e Sousa. A questão é se quer continuar a liderar esta tabela ou se transforma estes números num ponto de viragem. Isso dependerá do que fizerem o Estado, o Município e as forças de segurança. Mas dependerá também de nós – da forma como, enquanto comunidade, escolhemos usar a informação, a lei e os espaços de participação que já existem para reclamar, enfim, uma cidade mais segura.
Não escrevo este editorial para alimentar alarmismos, nem para pintar o concelho como uma terra perigosa. Escrevo-o porque os dados mostram um problema real, que está a crescer e a afetar a vida quotidiana de quem aqui vive, trabalha e investe.
A segurança pública é o alicerce sobre o qual se constrói a liberdade. Sem ela, não há comércio próspero, não há usufruto pleno do espaço público e não há qualidade de vida. Os números de 2024 são um aviso sério. Felgueiras não pode normalizar o facto de ser o concelho com a maior taxa de criminalidade da região. É urgente que a estratégia de segurança saia do papel e desça à rua, antes que a estatística se agrave e o medo se instale definitivamente.
Pedro Fonseca