A iniciativa partiu da constatação da gravidade da situação na zona centro. Bruna Magalhães, responsável pelo Departamento de Segurança da Pedrigosende, explica o processo de mobilização: “Percebemos que, efetivamente, tinha acontecido algo muito grave em Leiria. Decidimos ver se tínhamos colaboradores disponíveis para conseguirmos dar resposta.” Para viabilizar a missão, a empresa contou com o apoio dos seus próprios clientes: “Falámos com alguns clientes onde tínhamos os nossos funcionários a trabalhar… perguntámos se seria possível abdicarem de ter lá os nossos funcionários. Eles abdicaram e conseguimos juntar uma equipa de 20 elementos.”
A empresa transportou cerca de 3 mil telhas num camião e garantiu que os custos não recaíssem sobre as vítimas ou sobre os trabalhadores. “Estamos a pagar na mesma aos funcionários. Eles dormem num hotel”, esclarece Bruna Magalhães, acrescentando que a alimentação tem sido providenciada pelos locais: “As pessoas juntam-se e dão-nos o almoço. Outras vezes são apartamentos: as pessoas do condomínio juntam-se e pagam-nos a refeição.”
No terreno, o cenário encontrado foi de desespero. Bruna relata que, após um levantamento inicial com o Presidente de Junta da Boavista, a chegada da equipa na segunda-feira gerou uma corrida por auxílio: “Foi um ‘chamariz’: as pessoas faziam fila para falar connosco e pedir ajuda.”
A partir desse momento, a realidade superou qualquer previsão logística. “Trouxemos material para dar resposta a essas casas e ainda um stock de segurança. No entanto, neste momento, o material já está quase todo escoado”, confessa Bruna Magalhães. A escassez de componentes específicos tornou-se o maior obstáculo para quem tenta devolver o teto às famílias: “Já não temos cumes, só temos telhas — e já nem temos a telha específica de que algumas casas precisam, temos outro tipo — porque, efetivamente, já estamos a dar resposta a situações que não esperávamos.”
A dimensão dos estragos e a tipologia dos edifícios têm impossibilitado o auxílio em casos críticos. “Continuam a cair muitos pedidos aos quais não conseguimos dar resposta. São situações, por exemplo, de telhados completos em apartamentos com acesso muito difícil, que só seria possível com plataformas elevatórias ou andaimes, que nós não trouxemos”, lamenta a responsável. Bruna admite que a equipa não estava equipada para tamanha destruição: “São intervenções de grande envergadura para as quais não estamos preparados; teríamos de trazer muitos mais meios. Não foi possível, de todo, dar resposta a essas pessoas.”
Até pedidos institucionais, como a reparação de estabelecimentos de ensino, estão em espera. “Também nos pedem para ir às escolas, para os meninos poderem voltar, mas a verdade é que, mesmo em algumas casas onde damos resposta, é complicado”, refere. No terreno, a equipa depara-se com problemas estruturais graves que forçam soluções de recurso. “Às vezes vai contra a nossa forma de trabalhar, porque estamos basicamente a ‘tapar um buraco’ que não dá para tapar, pois as vigas também estão danificadas. Estamos a fazer de tudo para que não chova nas habitações, porque temos pessoas a dizer que dormem com a chuva a cair-lhes em cima da cama”, descreve Bruna Magalhães.
O contacto com o sofrimento humano tem sido constante. “Já vimos pessoas que perderam familiares; vimos situações de quem não come uma refeição quente nem toma banho desde que aconteceu, na madrugada de quarta-feira. Tem sido complicado”, relata a responsável. Bruna fala ainda a insuficiência da resposta: “Também já percebi que os apoios aqui em Leiria não têm sido os melhores.” Por contraste, a presença nortenha é valorizada pelos operacionais de socorro: “Os bombeiros dizem que vêm do Norte e, quando sabem que nós também somos do Norte, é o que eles gostam: dizem que somos ‘outro tipo de pessoas’.”
Perante a incapacidade de responder a todos os pedidos, Bruna Magalhães termina com um apelo direto aos empresários do setor: “Eu gostava de deixar um apelo aos nossos parceiros da construção civil para se deslocarem e ajudarem. Deixo o apelo para ver se conseguem angariar material, caso não tenham condições de o oferecer diretamente. Se não tiverem condições financeiras, tentem pelo menos angariar junto dos fornecedores de telha e afins, para que estes disponibilizem material gratuitamente e os construtores disponibilizem a mão de obra.” Para a equipa de Felgueiras, cada pequeno gesto é vital: “Estamos a dar o nosso melhor, mas é muito difícil responder a isto”.