Criminalidade em alta, buracos nas estradas e trânsito caótico às portas do Natal. No episódio 12 de «O que ninguém te conta sobre Felgueiras!», Pedro Fonseca e o comentador residente Leonel Costa olham para três sintomas que, somados, alimentam um mal-estar difuso no concelho.
“Hoje vamos falar sobre três temas: primeiro, a criminalidade; o segundo, já recorrente, que são os buracos na estrada; e depois vamos falar de compras de Natal”, introduz Pedro Fonseca. O fio condutor é simples: perceber o que dizem os dados, como reage o poder local e o que sentem, na prática, os felgueirenses.
Criminalidade: mais crimes, mais perceção, pouca resposta política
O ponto de partida é um número: 1424 crimes registados em 2024, mais 81 do que no ano anterior. “Felgueiras é o concelho com a taxa de criminalidade mais alta de toda a região do Tâmega e Sousa”, sublinha Pedro Fonseca. Em três anos, lembra, “o número total de crimes cresceu cerca de 18%, passando de 1203 para 1424 ocorrências. Em média, o concelho de Felgueiras regista quase quatro crimes por dia”.
Para Leonel Costa, que escolheu o tema, o essencial é a tendência: “Não é só o facto da taxa ter aumentado, não é só o facto de Felgueiras ter a taxa mais alta de criminalidade na região, mas a tendência ser essa.” O antigo deputado contrapõe a Felgueiras da infância — “era muito natural nós irmos a pé, sozinhos, para a escola” — ao presente: “O país, e até o mundo, mudou. (…) A forma de ver a vida mudou. Mas, de facto, a segurança… mudou.”
O comentador reconhece que o tema “é perigoso, porque facilmente nos pode levar para discursos mais extremistas, barra racistas, barra xenófobos”, mas recusa esse caminho. O que o preocupa é a reação do poder local. “Acho que quem tem alguma responsabilidade não assume verdadeiramente, ou assobia para o lado”, acusa, destacando que, sem a notícia inicial do Felgueiras Magazine, “este tema se calhar passava despercebido a muita gente. E quando digo muita gente, sobretudo àquela que tem mais responsabilidade”.
Na última Assembleia Municipal, o PSD levou os dados a debate. O que mais impressionou Leonel foi a resposta do presidente da Câmara. “Chocou-me a forma como o presidente da Câmara demonstrou que não estava minimamente por dentro do assunto, não conhecia os dados”, afirma. E contesta a explicação oficial de que o aumento se deve à condução sob efeito de álcool: “Quem vê a tua notícia até diz precisamente que foi o contrário: esse tipo de crimes diminuiu em Felgueiras. E os crimes que aumentaram são os crimes contra o património.”
Pedro Fonseca partilha a leitura de fundo: “Os dados mostram, de facto, que há um problema real.” Ainda assim, recusa dramatizar. “Ao contrário daquilo que dizes, eu não acho que exista propriamente um clima de insegurança”, afirma. “Mas há uma perceção diferente daquilo que se passa, e isso há, sem dúvida. (…) E não se pode normalizar o facto de Felgueiras ser o concelho com maior taxa de criminalidade da região.”
Leonel concorda que a cidade não se tornou, de repente, um lugar perigoso. “Não sinto que Felgueiras seja um concelho inseguro, nada disso”, garante. “Sinto-me à vontade para passear, seja a qualquer hora do dia ou da noite.” Mas insiste que “as coisas têm acontecido, tem aumentado a criminalidade e a perceção realmente mudou bastante”. E deixa o aviso: é preciso agir “antes que comecemos então realmente a dizer que Felgueiras é uma cidade insegura, o que seria muito mau”.
Buracos na estrada: remendos eleitorais e alcatrão “pintado”
Do mal-estar com a segurança, o episódio passa para um clássico da agenda local: o estado das estradas. “Vieram umas chuvas antes do Natal e voltámos a ficar com as estradas completamente esburacadas no concelho de Felgueiras”, resume Pedro Fonseca. O economista admite que “há um plano de recuperação da rede viária municipal”, mas o que se vê “na realidade do dia a dia” é outra coisa: “Vem uma chuvinha e logo, pumba, estradas completamente esburacadas.”
O Felgueiras Magazine tem recebido “várias mensagens com queixas dos leitores”, e Pedro Fonseca assume usar o podcast “para, como munícipe, me queixar também dos buracos” e pedir que se “acelere este processo de reparação”.

Leonel Costa responde em registo semi-irónico: “Senti. Mas acho que vamos deixar de os sentir novamente.” Recorda que “antes das eleições, de facto, a maioria dos buracos foram tapados, consertados”, mas em muitos casos tratou-se apenas de “uma lavadela para a imagem”. A prova surgiu com as primeiras chuvas mais intensas: “Uma pequena chuva destapou logo os buracos e fez crescer outros.”
O problema, insiste, está na qualidade das intervenções. “Quem assistiu a algumas reparações percebia que a camada de alcatrão que era aplicada… eu não percebo nada disto, mas estava evidente que era simplesmente quase uma pintura da estrada”, descreve. O resultado é previsível: “Basta haver uma chuva mais acentuada e os buracos aí estão novamente.”
Obras, trânsito e compras de Natal: a equação mal resolvida
O terceiro tema junta Natal, trânsito e planeamento urbano. A Avenida Dr. Ribeiro Magalhães, uma das principais vias de acesso ao Nova Terra Retail Park, está em obras. Poucos dias antes do Natal, um pequeno troço, junto ao Café Bocage, passou a ter apenas um sentido de circulação.
“Esta é uma das principais vias de acesso ao retail park de Felgueiras, onde está a JOM, a Action, e também à Mercadona e ao Intermarché… sítios de excelência para as compras de Natal”, contextualiza Pedro Fonseca. O desvio recomendado encaminha o tráfego para o centro da cidade, “mais em concreto pela rua onde está o Continente, o Pingo Doce, o Lidl”. O resultado foi um Natal com “trânsito, por vezes, bastante caótico na cidade de Felgueiras”.
“Como munícipe, compreendo a questão das obras, que causam sempre constrangimentos”, admite, mas deixa “um ligeiro desagrado” e a dúvida sobre o calendário: se não seria possível “manter aquela via transitável durante mais uns dias até ao fim do Natal”.
Leonel Costa vai mais longe e questiona a lógica de fundo: “Estavas aqui quase em jeito de sugestão a perguntar se daria para atrasar um bocadinho as obras. Eu pergunto se não daria para ter antecipado um bocadinho.” O que lhe parece mais estranho é o facto de se tratar de “uma obra recém-inaugurada” que, pouco tempo depois, já obriga a novos trabalhos na via principal. “Uma obra daquela dimensão (…) e pouco tempo depois seja quase encerrada ao público, ou parcialmente, por o trânsito na estrada principal estar a ser objeto de obras”, nota.

Na sua leitura, perdem os comerciantes — “pensam sempre em recuperar uma forte parte do investimento logo nestas épocas” — e perdem os felgueirenses, que “deixaram de ter esta alternativa, e não só para esse retail park”, incluindo o comércio em redor. “São os custos das obras”, concede, mas insiste que “essas obras deveriam ter sido projetadas antes”.
No fecho, Pedro Fonseca recorda que o objetivo do podcast não é apenas amplificar queixas. “Tenho o privilégio de ter esta visibilidade para trazer desagrados meus e também dos leitores do Felgueiras Magazine”, admite, mas faz questão de sublinhar que “também temos coisas boas”, como a programação de Natal, que “correu muito bem”.