Num tempo em que a infância é cada vez mais atravessada por estímulos rápidos e tecnologia precoce, há lugares que continuam a preservar o essencial: o tempo, o cuidado e a descoberta. O Centro Juvenil de S. José com mais de um século de história ao serviço de crianças e jovens em situação de vulnerabilidade, é um desses lugares. Entre as suas várias respostas sociais, destaca-se a Creche Rosas Amorim Vieira, situada na freguesia de Jugueiros, no concelho de Felgueiras, onde a infância é acompanhada com intencionalidade, respeito e atenção ao detalhe.
Criada em 2012, após a doação de um edifício, a creche surgiu para responder à carência de respostas para a primeira infância na região. Hoje, é um espaço onde se constrói, diariamente, um ambiente pensado para o desenvolvimento integral das crianças, desde os primeiros meses de vida até aos três anos — uma fase que a diretora técnica e educadora, Marta Fernandes, descreve como “o período mais importante da vida do ser humano”.

É nestes primeiros anos que tudo começa a ganhar forma: o cérebro desenvolve-se a um ritmo impressionante, surgem as primeiras palavras, os primeiros passos, e, sobretudo, constroem-se os vínculos emocionais que sustentam a segurança e a confiança. “As experiências, interações e brincadeiras influenciam diretamente o desenvolvimento global”, sublinha.
Na creche, esse princípio traduz-se numa prática diária onde o cuidado não é apenas resposta às necessidades básicas, mas também um gesto educativo. Criar um ambiente seguro é o ponto de partida — e isso faz-se, antes de mais, através da relação. “As crianças precisam de conhecer bem os adultos de referência e sentir-se plenamente seguras na sua presença”, explica Marta Fernandes. A par disso, o espaço é cuidadosamente organizado: acolhedor, sem excesso de estímulos, estruturado por áreas que convidam à exploração. As rotinas, por sua vez, são previsíveis e ajustadas, respeitando o ritmo de cada criança.

Há uma ideia central que orienta este trabalho: o espaço como “terceiro educador”. Os materiais estão acessíveis, os brinquedos são escolhidos com intencionalidade e vão sendo renovados conforme os interesses do grupo. Não há ecrãs. A tecnologia entra apenas de forma pontual, sobretudo através da música. Em vez disso, há tempo para brincar — verdadeiramente brincar.
E há, sobretudo, exterior.
A localização da creche permite algo cada vez mais raro: o contacto direto com a natureza. Basta atravessar a rua para encontrar um jardim amplo, animais como burros e cavalos, e um cenário que convida à descoberta. “Valorizamos que as crianças passem grande parte do seu tempo ao ar livre”, refere Marta Fernandes. É nesse espaço que saltam em poças de água, exploram texturas, observam o mundo e criam ligações espontâneas com o que as rodeia.
Mais do que atividades formais, o dia é preenchido por experiências sensoriais e momentos intencionais que estimulam a curiosidade. Mas o foco mantém-se claro: nos primeiros anos, o mais importante é a qualidade dos cuidados e a construção de vínculos seguros. É a partir daí que nasce a autonomia.

Num mundo que muitas vezes apressa a infância, a creche propõe um ritmo diferente — mais próximo, mais atento, mais humano. E deixa também uma mensagem às famílias, simples e essencial: “Passem o máximo de tempo possível com os vossos filhos, deixando o telemóvel de lado e envolvendo-se verdadeiramente nas brincadeiras com eles.”
Porque, como lembra Marta Fernandes, a infância não se mede em objetos, mas em memórias. E essas constroem-se nos pequenos momentos: a correr ao ar livre, a apanhar flores, a rir em conjunto. Momentos que ficam — e que, de forma silenciosa, moldam quem a criança virá a ser.
Por Ana in Wonderland