Em 1985, três jovens ligados à indústria da borracha decidiram arriscar e criar a Combocal, em Sendim, Felgueiras. Quarenta anos depois, a empresa é uma referência discreta na produção de solas de borracha vulcanizada para algumas das marcas mais exigentes, dentro e fora de Portugal.
Pelo caminho, enfrentou juros altíssimos, crises, falências de clientes e uma pandemia, modernizou a fábrica, entrou em feiras internacionais e abriu a porta a novos materiais ecológicos.
Hoje, com a entrada do filho, Ricardo, a preparar a próxima geração, José Cunha Pinto olha para trás com orgulho e para a frente com cautela e esperança.
Nesta entrevista, o fundador e gerente da Combocal revisita as origens, fala das fases mais difíceis e explica o que ainda sonha para a empresa.
Felgueiras Magazine – Como nasceu a ideia de fundar a Combocal em 1985?
José Cunha Pinto – A Combocal nasceu da iniciativa de três jovens que trabalhavam na Guiarco, uma empresa de solas de borracha dos saudosos Sr. Armindo Soares Teixeira, o “Pepino”, e Sr. José Ribeiro, o “Zé Bravo”. Já tínhamos experiência na área da borracha e um enorme desejo de crescer. Juntou-se também a nós um membro com conhecimento em solas de TR, também ele vindo da Guiarco, o que reforçou a nossa capacidade técnica.
Deste modo, em 1985, decidimos dar o passo e criar o nosso próprio projeto. Era um sonho ambicioso, movido pela vontade de trabalhar à nossa maneira. Na altura, não havia muitas fábricas de solas de borracha, algo que foi encarado como uma oportunidade.
Há cerca de 15 anos, assumi a liderança da Combocal, tornando-me o único remanescente da sociedade inicial.
Que memórias guarda dos primeiros dias da empresa?
Recordo-me de dias cheios de ansiedade, mas também de uma enorme determinação. Tinha receio de falhar, naturalmente, mas estava movido por uma profunda esperança e fé de que conseguiríamos vencer. Cada pequena conquista era vivida com intensidade, visto que tudo começou pequeno.
Foram dias de muito esforço, muitas horas de trabalho e incertezas, mas também de grande entusiasmo por estarmos a construir algo nosso, passo a passo.
Na altura, imaginava que chegaria aos 40 anos?
Naquela altura, a vontade de avançar era tão grande que não havia espaço para pensar tão longe. O foco estava sempre no dia seguinte: produzir bem, servir bem os clientes e honrar compromissos.
Olhando agora para trás, vejo que essa mentalidade de seguir em frente, um dia de cada vez, foi uma das grandes forças da Combocal.

Quais foram os maiores desafios nos primeiros anos?
Os maiores desafios nos primeiros anos foram, acima de tudo, a responsabilidade de não desiludir a minha família nem as pessoas que acreditaram em nós. Além disso, as condições financeiras eram muito difíceis. Tínhamos empréstimos a juros altíssimos, entre 25% e 30% ao ano, e todos os meses era uma luta para conseguir cumprir esses compromissos.
Outro desafio foi conseguir conciliar tudo isto com a vida familiar. A empresa trabalha 24 horas por dia e, muitas vezes, faltava tempo para estar com a família. Foi um período de grande sacrifício, mas também de muita aprendizagem e determinação.
Qual foi a fase mais difícil do percurso — crise de 2008, pandemia ou outra? Houve alguma situação em que quase desistiu?
A crise de 2008, curiosamente, não foi tão difícil para nós. Houve também algumas dificuldades nos anos 90, com a falência de alguns clientes, o que teve um impacto financeiro bastante negativo, mas tudo se foi ultrapassando porque havia muito trabalho para superar essas dificuldades.
Já a pandemia foi completamente diferente: tudo era novo, incerto e até assustador. Nem as próprias autoridades de saúde sabiam, no início, como lidar com a situação.
Foi um período em que tivemos de nos adaptar rapidamente, dia após dia, para garantir a segurança das pessoas e manter a empresa a funcionar.
Que momentos considera decisivos nestes 40 anos da Combocal?
Um dos momentos mais decisivos foi em 2010, quando assumi a gerência da Combocal e me tornei o único proprietário da empresa. A partir desse momento, alterámos a estratégia da empresa e iniciámos a internacionalização, participando pela primeira vez na feira Lineapelle, em Bolonha, Itália, e mais tarde nas edições seguintes, em Milão.
Essas feiras representaram um verdadeiro ponto de viragem: abriram-nos para uma nova realidade, permitiram-nos mostrar ao mundo a qualidade do produto que fazemos e deram-nos a confiança necessária para competir fora de Portugal. Foi assim que começámos a conquistar clientes de vários países da Europa e, posteriormente, de outras partes do mundo.
Como era a tecnologia de produção de solas nos anos 80 e 90? Muito diferente da fábrica de hoje?
Nos anos 80 e 90, a tecnologia na área das solas de borracha era bastante rudimentar em Portugal. Já existiam avanços noutros setores, mas no nosso setor trabalhava-se essencialmente com prensas simples, cilindros abertos, também conhecidos como misturadores de borracha, e pouco mais. Grande parte do processo dependia da experiência e da sensibilidade dos operadores.
Hoje, a realidade é completamente diferente. Dispomos de tecnologia muito mais avançada, o que nos permite trabalhar a outro nível, tanto em termos produtivos, a nível de resposta e formas de trabalhar, como na forma de desenvolver materiais. Atualmente, conseguimos, por exemplo, através do nosso laboratório interno, realizar diversos ensaios e testes que antes eram impensáveis, garantindo que cada produto cumpre padrões de qualidade e desempenho estabelecidos, assim como investigar novos materiais.
A evolução tecnológica permitiu-nos aumentar a eficiência, reduzir desperdícios, melhorar a consistência dos produtos e, sobretudo, aumentar o padrão de qualidade da Combocal.

Recorda-se de alguma grande inovação técnica que tenham introduzido (se houver alguma que valha a pena destacar)?
Uma das mais significativas foi a introdução de máquinas de injeção de borracha, que já temos há mais de 8 anos. Assim, atualmente temos uma produção híbrida, com capacidade de compressão e injeção para a produção de 6 000 pares diários.
Que papel desempenhou (e desempenha) a equipa, os colaboradores, no sucesso da empresa?
A equipa sempre teve um papel absolutamente determinante na história da Combocal. Desde o início contamos com pessoas dedicadas, competentes e com vontade de fazer bem. Foram elas que garantiram, em todas as fases, que o produto saía com qualidade.
A empresa foi mudando e modernizando-se ao longo dos anos, mas há algo que nunca mudou: a importância das pessoas. A Combocal é feita pelo trabalho e pelo empenho de todos os que aqui passaram e de todos os que cá estão hoje.
O sucesso destes quarenta anos não é só meu. É da equipa inteira. Sem o esforço, a lealdade e a responsabilidade de cada colaborador, a Combocal não seria o que é hoje.
O que tenta transmitir, como líder, aos seus trabalhadores?
Procuro transmitir aos meus trabalhadores a importância da dedicação, da responsabilidade e do rigor no trabalho. Os tempos que se aproximam não serão fáceis e, por isso, acredito que devemos estar sempre preparados para o futuro, que começa já amanhã.
Defendo que cada pessoa deve fazer bem o seu trabalho, com atenção e seriedade, porque é isso que sustenta a qualidade da empresa e garante que continuamos a merecer a confiança dos nossos clientes. Mais do que palavras, tento dar o exemplo todos os dias.
A Combocal destaca-se hoje também pelos materiais ecológicos. Como nasceu essa aposta?
A aposta em materiais ecológicos e sustentáveis ganhou uma nova força com a entrada do meu filho, Ricardo, que concluiu a formação em Engenharia de Polímeros. A sua visão técnica e o seu conhecimento trouxeram uma enorme mais-valia para a empresa, permitindo-nos explorar novos materiais, desenvolver soluções mais responsáveis e acompanhar as exigências ambientais do setor.
Já tínhamos alguma sensibilidade para estes temas, mas foi com a sua chegada que começámos a trabalhar de forma mais estruturada e orientada para produtos que combinam desempenho, inovação e sustentabilidade.
Qual foi o material/produto mais desafiante de desenvolver?
No início da atividade, o material mais desafiante foi a produção de solas utilizando triturado de pneus e apenas o excedente da pasta dos pisos que recolhíamos em empresas de recauchutagem de pneus. Com esses materiais, fabricávamos solas de imitação crepe para botas de trabalho, e era necessária muita técnica para obter qualidade com recursos limitados.
Hoje, o desafio é diferente. Trabalhamos com uma grande variedade de materiais inovadores. Existem diversos outros elementos naturais que podem ser incorporados nas borrachas, como as fibras de bananeira, ou até mesmo solas totalmente naturais, a partir de látex, biossílica e aditivos naturais.
Além disso, desenvolvemos também solas condutivas para o setor de calçado de segurança, que exigem uma precisão técnica muito elevada.

Os clientes valorizam verdadeiramente materiais eco-friendly ou ainda é mais marketing do que prática?
Sim, hoje os clientes valorizam cada vez mais os materiais mais sustentáveis. Vivemos numa era de maior consciência ambiental e isso reflete-se nas escolhas das marcas com quem trabalhamos. A Combocal tem sensibilizado os clientes e procurado mostrar que é possível desenvolver solas com desempenho de excelência e, ao mesmo tempo, com menor impacto ambiental. Exemplo disso são as solas com incorporação de borracha reciclada, proveniente dos nossos resíduos de produção.
Além disso, temos apostado na mobilidade elétrica dentro da empresa e na utilização de máquinas mais eficientes, com menor consumo energético.
O que diferencia a vossa oferta face à concorrência estrangeira? Há boas solas produzidas lá fora?
O que nos diferencia da concorrência estrangeira é, acima de tudo, a qualidade e a rapidez do serviço. Na Combocal, tratamos cada produto com a maior atenção, como se fosse uma peça única. Nunca descuramos a qualidade, apostamos em fórmulas de alta durabilidade, e é isso que permite construir e consolidar a marca ao longo do tempo.
É claro que existem solas boas produzidas lá fora, mas acreditamos que a nossa dedicação e o cuidado no detalhe que colocamos em cada sola fazem a diferença. É essa forma de trabalhar que nos tem permitido conquistar e manter clientes exigentes.
A cópia é um problema real? Como lidam com isso?
Sim, a cópia é um problema real e existe no nosso setor. Para nos proteger, a Combocal cria coleções próprias e regista e patenteia todos os modelos. Não evita tudo, mas ajuda a reduzir muito essas situações.
O cliente está mais exigente do que há 20 anos?
Na minha opinião, o cliente foi sempre exigente. E ainda bem. Foi graças a essa exigência que tivemos de evoluir continuamente e que conseguimos trabalhar com algumas das melhores marcas. A exigência dos clientes obrigou-nos sempre a manter padrões elevados e a não baixar na qualidade e no serviço.
Como descreve o estado atual do setor do calçado em Portugal? Tem havido trabalho?
O setor do calçado em Portugal está a atravessar uma fase delicada. A procura oscila muito e depende bastante das marcas e dos mercados internacionais com que cada empresa trabalha. Há empresas com mais dificuldade e outras que têm conseguido manter alguma estabilidade.
No nosso caso, felizmente, temos tido trabalho e não podemos queixar-nos, mas a verdade é que o setor, no geral, enfrenta desafios importantes: custos elevados, muita concorrência estrangeira, prazos curtos e um mercado cada vez mais exigente.
Apesar disso, acredito que Portugal continua a ter uma indústria de calçado forte, reconhecida pela qualidade e pela capacidade de adaptação. Mas é preciso estar atento, inovar e trabalhar todos os dias para responder às mudanças do mercado.
O calçado português ainda consegue competir nos mercados internacionais?
Sim. O setor tem mostrado, ao longo dos anos, que, quando somos resilientes, inovadores e profissionais, conseguimos manter um nível de qualidade muito elevado.
Temos mão de obra experiente, empresas muito dedicadas e uma capacidade de adaptação rápida que é reconhecida lá fora. Se continuarmos a apostar em qualidade, diferenciação e bom serviço, acredito que Portugal pode continuar a afirmar-se no mercado internacional.
Como antecipa o futuro do setor nos próximos 2 a 3 anos?
Vejo o futuro com expectativa e esperança. Serão anos desafiantes, mas acredito que o setor continuará a evoluir se mantivermos o foco na qualidade, na inovação e na capacidade de adaptação.
A digitalização, a robotização, a inteligência artificial são algo em que pensa nos dias de hoje?
Sim, sem dúvida. O mundo tecnológico está a mudar rapidamente e sabemos que é essencial acompanhar essa evolução para continuarmos competitivos. Acredito que a tecnologia não vem substituir as pessoas, mas sim ajudá-las a trabalhar melhor, a melhorar o controlo dos processos e a reduzir desperdícios.
Estamos atentos às novas soluções e analisamos formas de integrar estas ferramentas na empresa, sempre com o objetivo de aumentar a eficiência e preparar a Combocal para os desafios dos próximos anos.
Falando de políticas públicas, o que é que Felgueiras poderia ter ou fazer que ajudasse a tornar a indústria do calçado mais competitiva?
É sempre sensível falar de política, mas posso dizer que Felgueiras beneficiaria com mais incentivos e, acima de tudo, com mais cursos e formação direcionados para o setor do calçado e para a indústria transformadora. O reforço das competências locais seria uma forma de fortalecer o tecido empresarial e preparar melhor as novas gerações para as exigências do mercado.

E a nível nacional, que mudanças Portugal precisa de fazer para que a indústria de calçado seja competitiva internacionalmente?
A nível nacional, seria importante aliviar a carga fiscal das empresas e também dos trabalhadores, para que o setor possa crescer de forma mais sustentável e competitiva. É igualmente essencial identificar o que não está a funcionar e criar condições mais favoráveis para quem quer investir e trabalhar.
Acredito também que a confiança começa no exemplo: é fundamental que as lideranças políticas transmitam boas práticas e contribuam para um ambiente económico mais estável e transparente. Só assim conseguimos dar às empresas segurança para investir no futuro.
A entrada do seu filho, Ricardo Pinto, trouxe sangue novo. O que mudou na empresa?
A entrada do meu filho, Ricardo, foi uma enorme mais-valia para a Combocal. Trouxe uma visão mais técnica, fruto da sua formação em Engenharia de Polímeros, e introduziu novas metodologias de trabalho que modernizaram a empresa.
A sua presença trouxe também um olhar mais analítico e inovador sobre os processos, ajudando-nos a enfrentar o dia a dia com maior organização e eficiência. Além disso, reforçou a aposta na sustentabilidade e no desenvolvimento de novos materiais, áreas que hoje são fundamentais para o futuro do setor.
Em termos gerais, a sua chegada marcou uma nova fase na Combocal, mais inovadora, mais orientada para o futuro e mais preparada para os desafios que aí vêm.
Como encara o tema da sucessão numa empresa que é, em grande parte, a sua vida?
Encaro o tema da sucessão com natural apreensão, porque os tempos que se avizinham são incertos e desafiantes. Ainda assim, mantenho-me confiante. Acredito no trabalho que temos vindo a fazer internamente e na capacidade das pessoas que me acompanham, incluindo o meu filho, que tem mostrado grande dedicação e competência.
A empresa representa grande parte da minha vida, mas sei que chega o momento de dar espaço a uma nova geração, com novas ideias e energia. É importante preparar essa transição com responsabilidade, garantindo que a Combocal continua a crescer com o mesmo rigor, valores e espírito que sempre a guiaram.
O meu objetivo é que a próxima geração encontre uma estrutura sólida, bem organizada e esteja pronta para levar a Combocal ainda mais longe.
Que sonhos ainda tem por concretizar na Combocal?
Sempre fui um sonhador e ainda tenho muitos sonhos para a Combocal. O principal é continuar a elevar a qualidade do nosso trabalho e alcançar um nível ainda mais alto de reconhecimento no mercado. Quero ver a empresa crescer de forma sólida, com inovação, com boas pessoas e com a saúde necessária para enfrentar o futuro com confiança. Enquanto tiver forças, o meu objetivo é continuar a contribuir para que a Combocal vá sempre mais longe.
O que é que mais o preocupa na atual sociedade?
O que mais me preocupa na sociedade atual é a falta de compromisso e de responsabilidade que noto em algumas pessoas. Sinto também que, por vezes, falta seriedade e verdade nas relações humanas.
Acredito que precisamos de recuperar valores simples, como a palavra, o respeito e a honestidade. São esses valores que sustentam qualquer comunidade, qualquer equipa e qualquer empresa. E continuo a acreditar que, com boas práticas e bom exemplo, é possível melhorar.
Onde imagina a empresa dentro de 10 anos?
É difícil prever o que acontecerá daqui a 10 anos, sobretudo num setor que evolui tão depressa. Mas imagino a Combocal a manter aquilo que sempre a distinguiu: qualidade, rigor e seriedade. Quero que a empresa continue fiel à sua identidade, mas preparada para crescer, acompanhando as novas tecnologias, as exigências dos clientes e as oportunidades que surgirem em novos mercados.
Se continuar rodeada de pessoas dedicadas e responsáveis, acredito que a Combocal poderá alcançar um patamar ainda mais alto, mantendo sempre os valores que nos trouxeram até aqui.