O setor italiano do calçado iniciou 2026 com sinais de abrandamento, confirmando um contexto internacional difícil que continua a afetar uma das mais importantes indústrias europeias. Os dados divulgados pela Assocalzaturifici, associação que representa os fabricantes italianos de calçado, mostram que a faturação recuou 2,7% no primeiro trimestre do ano, enquanto as exportações diminuíram 1,6% em valor e 3,6% em volume, face ao mesmo período de 2025.
A presidente da Assocalzaturifici, Giovanna Ceolini, considera que os números “confirmam as preocupações manifestadas pelas empresas” no início do ano. A responsável sublinha que “a faturação caiu 2,7%, enquanto as exportações apontam para uma fraqueza generalizada”, sobretudo nos mercados fora da União Europeia.
Segundo a dirigente, apesar de o mercado interno italiano apresentar “uma ligeira recuperação do consumo”, essa evolução “não é suficiente para compensar o abrandamento dos mercados internacionais, que continuam a ser o principal motor do setor”. Giovanna Ceolini acrescenta que “as tensões geopolíticas estão a agravar estas dificuldades”, num cenário internacional marcado pela imprevisibilidade, pelo aumento dos custos e pelo adiamento das decisões de compra por parte dos clientes. A subida dos preços das matérias-primas e da energia continua igualmente a preocupar as empresas.
Exportações continuam a sustentar o setor
As exportações representam cerca de 90% da faturação da indústria italiana do calçado e atingiram aproximadamente 3 mil milhões de euros entre janeiro e março.
Entre os principais destinos europeus, França manteve-se como o maior mercado para o calçado italiano, registando um crescimento de 6% em valor, embora com uma redução de 3,6% em volume. Já a Alemanha apresentou uma quebra de 10%.
Fora da Europa, os resultados foram mais penalizadores. As exportações para o Médio Oriente caíram 33%, tendo registado uma quebra de 62% apenas em março, na sequência do conflito na região. As vendas para os países do antigo bloco soviético diminuíram 21%, enquanto os Estados Unidos, afetados pelas tarifas adicionais sobre importações em vigor desde a primavera de 2025, registaram uma descida de 7,4% em valor.
Ainda assim, a balança comercial do setor melhorou, atingindo 1,3 mil milhões de euros, um crescimento de 10,9%, impulsionado pela redução das importações, que caíram 9,5%.
Menos empresas e menos trabalhadores
O primeiro trimestre voltou igualmente a refletir as dificuldades ao nível da produção e do emprego.
Nos primeiros três meses de 2026 desapareceram 85 empresas de fabrico de calçado em Itália e o setor perdeu 808 postos de trabalho face ao final de 2025.
Apesar da redução de cerca de 40% no recurso aos mecanismos de apoio ao emprego relativamente aos picos registados em 2025, a indústria do couro e do calçado continua a recorrer significativamente a estes instrumentos. No primeiro trimestre foram contabilizadas 6,2 milhões de horas de apoio salarial, um valor que permanece superior ao triplo dos níveis registados antes da pandemia.
Perante este cenário, a presidente da Assocalzaturifici defende que “é essencial tomar medidas para apoiar a internacionalização, reforçar a competitividade e garantir estabilidade para um setor que continua a ser estratégico para o Made in Italy”.