A indústria portuguesa de calçado continua a ganhar protagonismo internacional, com um número crescente de marcas estrangeiras a assumir publicamente que produz em Portugal. O fenómeno é visível tanto em marcas de luxo como em insígnias emergentes, que destacam o “made in Portugal” como parte integrante da sua proposta de valor.
Nos últimos anos, várias marcas têm associado a produção nacional à qualidade, ao know-how técnico e à capacidade de adaptação a séries mais curtas. A dinamarquesa Carciami, por exemplo, apresenta os seus modelos como “designed in Copenhagen, handcrafted in Portugal”, enquanto a espanhola John Tweed Tailored sublinha a origem portuguesa em vários modelos. Também a marca Avrego refere a produção artesanal no norte do país.
No segmento premium, a britânica Duke & Dexter produz parte significativa das suas coleções em Portugal, enquanto a sueca Axel Arigato recorre a fábricas nacionais para algumas linhas, valorizando a proximidade aos mercados europeus e a capacidade técnica da indústria portuguesa. Já a marca emergente Feeling Pieces integra igualmente Portugal na sua cadeia produtiva.
“A escolha de Portugal não é casual. A indústria nacional desenvolveu competências muito especializadas na produção de calçado de excelência”, destaca Paulo Gonçalves. Para o Diretor Executivo da APICCAPS, “a proximidade aos principais mercados europeus, a capacidade de produzir séries mais curtas e a aposta crescente na sustentabilidade têm reforçado a atratividade do país junto de marcas internacionais”. Em termos práticos, “num momento em que muitas empresas procuram cadeias de abastecimento mais curtas e fiáveis, Portugal surge cada vez mais como uma alternativa competitiva à produção massificada”.
O fenómeno reforça a posição de Portugal como um dos principais polos europeus na produção de calçado de elevado valor acrescentado, numa indústria fortemente orientada para a exportação e cada vez mais reconhecida pelo design, pela qualidade e pela capacidade de inovação.
Para Sérgio Cunha, “reconhecimento do made in Portugal pelas grandes marcas internaiconais deixou de ser uma promessa para se afirmar como uma evidência no panorama internacional”. Para o CEO da Nobrand, “a crescente valorização desta origem por parte de algumas grandes marcas representa um sinal claro de confiança na qualidade, no saber-fazer e na capacidade produtiva nacional. Mais do que um movimento isolado, este assumir poderá funcionar como um verdadeiro catalisador, abrindo caminho para que outras insígnias internacionais sigam o mesmo percurso e integrem, de forma assumida, o made in Portugal no seu discurso e posicionamento”.
O responsável pelo grupo Máximo Internacional, defende ainda que”Portugal afirma-se hoje como sinónimo de qualidade e de valor acrescentado, atributos cada vez mais reconhecidos pelas grandes marcas internacionais. Nestes segmentos, o preço deixa de ser o principal critério, abrindo espaço para uma valorização crescente da resposta rápida, da proximidade e do nível de serviço que a indústria portuguesa consegue”. Assim, “hoje em dia o sapato demora mais tempo a chegar à caixa. Isto é sinómino de mais etapas de carinho e de cuidado, que não existiam no passado”, explica.
Na verdade – continua Sérgio Cunha, “o setor distingue-se também pelo cuidado colocado em cada par, num processo mais demorado, feito de atenção ao detalhe e de verdadeiro saber-fazer. Nesse sentido, defende que é essencial tornar o made in Portugal mais visível e inequívoco, garantindo que essa origem é imediatamente associada a qualidade”
Para Alexandre Pimenta, trata-se de “uma consequência natural do trabalho que tem vindo a ser desenvolvido. Hoje muitas marcas estão a descobrir que Portugal não é apenas um país de produção mas sim um país de desenvolvimento, com inputs válidos para agregar valor ao processo criativo e produtivo.”
O CEO da Solpré, “Portugal afirma-se hoje como um parceiro de excelência para a indústria do calçado de valor acrescentado, sustentado por um know-how histórico e por um ecossistema altamente especializado, cada vez mais preparado para responder a séries curtas e às exigências do segmento de luxo”. “A esta base alia-se uma notável flexibilidade e rapidez de desenvolvimento, que permite trabalhar em proximidade com as marcas, desde a prototipagem até à produção. A forte integração vertical, com muitas empresas a concentrarem internamente várias etapas do processo. garante um controlo rigoroso da qualidade, enquanto a aposta na sustentabilidade e na transparência da cadeia de valor responde às crescentes exigências de rastreabilidade e compliance. Por fim, a proximidade geográfica e cultural com os principais mercados, aliada a uma relação qualidade-preço altamente competitiva, posiciona Portugal como uma alternativa estratégica entre os grandes polos produtivos globais”, explica o responsável da empresa.
António Ferreira explica que o “o trabalho desenvolvido tem dado frutos”. O responsável da Bolfex acredita que “a qualidade e o serviço prestado pela indústria portuguesa de calçado são maisva-lias para as marcas internacionais que procuram parceiros de confiança, que responsam rápido e com elevados nívels de qualidade”. Naturalmente – continua – “Portugal pode beneficar de todas as alterações geopolíticas que estão, atualmente, a acontecer, uma vez que se torna um parceiro geograficamente mais próxima das marcas de luxo internacionais”.