Em pouco mais de um ano, três retail parks mudaram a forma como os felgueirenses fazem compras. Vieram novas marcas, investimento e emprego. Para muitas pequenas lojas, começou também uma corrida silenciosa para encontrar uma forma de continuar a existir.
Há mudanças que acontecem devagar. Outras instalam-se quase de um dia para o outro.
Durante décadas, quem queria fazer compras em Felgueiras acabava inevitavelmente por passar pelo centro da cidade. Era ali que estavam as sapatarias, as lojas de roupa, as papelarias, as lojas de brinquedos e muitos dos cafés onde o comerciante conhecia o cliente pelo nome. O percurso fazia-se a pé, entre montras, cumprimentos e conversas rápidas.
No último ano, esse mapa comercial alterou-se profundamente.
A abertura do NovaTerra Retail Park, do Felgueiras Retail Park e do Parque Comercial de Felgueiras concentrou dezenas de novas lojas em três espaços distintos do concelho. Marcas nacionais e internacionais instalaram-se pela primeira vez em Felgueiras, criando uma oferta comercial que durante anos obrigava muitos consumidores a deslocarem-se para Guimarães, Porto ou Braga.
Para os consumidores, a mudança trouxe conveniência. É possível estacionar junto à porta, percorrer várias lojas em poucos minutos e regressar a casa com praticamente tudo o que se procurava. Para a economia local, chegaram novos investimentos e postos de trabalho. Mas a mesma transformação colocou uma questão inevitável ao comércio tradicional: como competir com empresas que compram em escala, trabalham com margens diferentes e dispõem de recursos incomparavelmente superiores?
Na Brinca+, loja de brinquedos inaugurada em 2024 no centro de Felgueiras, essa pergunta começou a ganhar forma muito antes de existir uma resposta.
O piso superior da loja permanecia praticamente vazio. Em vez de o manter fechado, Sérgio Ferreira decidiu transformá-lo numa oportunidade. A ideia não passou por aumentar a oferta de brinquedos, mas por procurar produtos que dificilmente os clientes encontrariam nas grandes superfícies.
“Começámos a pensar que tipo de artigos poderíamos colocar aqui que não entrassem em confronto direto com os produtos existentes nos retail parks, que são atualmente o principal local de compras dos felgueirenses”, explica.
Foi dessa reflexão que nasceu uma nova secção dedicada a artigos oficiais do FC Porto, Benfica, Sporting e Seleção Nacional, bolas de futebol, mochilas, material escolar e produtos sazonais. No verão surgem artigos de praia; no inverno, guarda-chuvas, corta-ventos ou galochas. A lógica não foi aumentar a quantidade de produtos, mas mudar a forma de competir.

Essa decisão surgiu precisamente quando começaram a abrir os novos espaços comerciais. “Esta iniciativa surgiu precisamente por causa desses novos retail parks que abriram em Felgueiras. Inevitavelmente, as pessoas começaram a frequentar mais esses locais”, admite o comerciante.
Competir diretamente nunca lhe pareceu uma possibilidade realista. A diferença de dimensão entre uma loja familiar e uma cadeia nacional torna essa disputa desigual desde o primeiro dia. Por isso, a Brinca+ optou por procurar um espaço onde a concorrência fosse menor.
“Tentámos diferenciar-nos pelo produto, porque, se entrarmos em concorrência direta com os mesmos produtos dos retail parks, o comércio local não tem hipótese, quer ao nível dos preços, quer da quantidade de stock disponível em loja.”
A explicação, diz, é simples. “Estamos a falar de grandes grupos empresariais. As lojas de comércio tradicional pertencem aos próprios proprietários e o poder financeiro não é o mesmo. Por isso, tínhamos de nos diferenciar pelo tipo de artigo e não pelo preço.”
Essa estratégia permitiu criar uma nova oferta, mas não eliminou o impacto que começou a sentir-se no centro da cidade. Sérgio Ferreira garante que a mudança não é apenas uma perceção individual. É um tema recorrente nas conversas entre comerciantes. “Sente-se muito esse impacto. Estou a falar por mim, mas também pelos lojistas aqui à volta, com quem conversamos diariamente.”
Na sua leitura, o fenómeno resulta da conjugação de vários fatores. A abertura quase consecutiva dos retail parks coincidiu com um período particularmente difícil para o setor do calçado — principal motor económico de Felgueiras — e alterou rapidamente os hábitos de consumo de muitos clientes.

“Desde que abriram os retail parks, as pessoas passaram naturalmente a frequentar mais esses espaços. Além de terem estacionamento à porta, reúnem um conjunto de lojas bastante conhecidas e pertencentes a grandes grupos.” Ao mesmo tempo, recorda, “esse impacto começou a sentir-se de forma muito significativa a partir de janeiro, porque coincidiu com uma fase menos positiva para o setor do calçado”. O resultado, conclui, foi inevitável: “Sem dúvida que tudo isso afetou bastante o comércio local e as pequenas lojas.”
Na opinião do comerciante, há ainda outra mudança que ajuda a explicar esta nova realidade. O centro da cidade tornou-se progressivamente mais orientado para o peão, mas considera que muitos consumidores continuam a privilegiar a rapidez e a facilidade de acesso proporcionadas pelos grandes espaços comerciais.
“Percebe-se a intenção de tornar a zona central mais pedonal, mas as pessoas ainda não aderiram muito a essa ideia.” Hoje, diz, o comportamento é diferente: “Quando vão às compras, preferem ir de carro, estacionar, comprar e ir embora. Muitas vezes já nem passam pelo centro da cidade.”
Apesar das dificuldades, Sérgio Ferreira evita olhar para os retail parks apenas como um problema. Reconhece que trouxeram investimento para o concelho e dinamizaram a economia local. “Os novos retail parks vieram dinamizar o comércio e até criar emprego.”
Ainda assim, acredita que o comércio tradicional continua a oferecer algo que nenhuma grande superfície consegue colocar numa prateleira. “Quando compram numa grande superfície pertencente a um grande grupo, estão a contribuir para aumentar os lucros dessa empresa. Quando compram no comércio local, o atendimento é diferente. Há um contacto direto com a loja e com a pessoa que está a atender.”
É precisamente nessa relação que vê o futuro das pequenas lojas.
“Esse atendimento personalizado faz toda a diferença. E, além disso, estão a ajudar uma família a pagar as suas despesas. Acho que é importante que as pessoas tenham essa noção.”
Felgueiras dificilmente voltará a ter o mapa comercial que tinha há poucos anos. A chegada dos retail parks alterou os percursos de compra, trouxe novas marcas e aumentou a oferta disponível no concelho. Para o comércio tradicional, a questão já não é travar essa mudança. É encontrar, dentro dela, um espaço onde ainda seja possível fazer a diferença. E, para algumas lojas, essa diferença começa precisamente onde as grandes superfícies terminam: na proximidade, na especialização e na relação de confiança construída ao longo dos anos.