Há espaços que chegam silenciosamente a uma cidade e, ainda assim, a transformam. O novo atelier Bioma, inaugurado em fevereiro deste ano em Felgueiras, é um desses lugares. A sua criadora, a artista Joana Antunes, nasceu em Amarante, mas vive em Felgueiras há 19 anos — tempo suficiente para que o território se tornasse casa e compromisso. Foi esse enraizamento que a levou a abrir o Bioma aqui, numa cidade que, segundo a artista, ainda não tinha um espaço com esta natureza.
Joana explica que a motivação ultrapassou a vontade de ter apenas um local de criação: “Para além de estar a cumprir um caminho artístico, senti a responsabilidade social de sensibilizar e educar para a dinâmica social. E assim nasceu o Bioma, que nada mais é que um ecossistema onde vivem espécies diversas que entram em equilíbrio e o meu objetivo é respeitar e potenciar essa individualidade num contexto coletivo.”
É também neste espírito que o Bioma se tornou um ponto de formação artística. Joana dá atualmente aulas de artes plásticas a duas turmas de crianças entre os 6 e os 11 anos, num ambiente de experimentação e descoberta, e acompanha ainda um aluno adulto em horário noturno. Esta vertente pedagógica reforça a missão do espaço: criar oportunidades acessíveis para que qualquer pessoa possa explorar o seu potencial criativo, independentemente da idade ou experiência. Quem desejar conhecer o Bioma não precisa de qualquer base artística — basta a curiosidade e a vontade de se permitir à criação.

A relação da artista com o município de Felgueiras tem sido contínua e antecede o nascimento do Bioma. Após a abertura do espaço, esta colaboração ampliou-se, com reuniões e propostas que, segundo Joana, têm sido recebidas com “uma porta aberta e vontade de querer fazer.” É deste diálogo que surge a exposição (Dez)contextos: Patrimónios Imaginários, um projeto conjunto entre Joana Antunes e Fernando Barros. Os dois artistas já tinham exposto lado a lado, mas regressam agora com uma abordagem centrada no património felgueirense, reinterpretado num registo onírico, entre memória, ficção e paisagens imaginárias. A exposição procura criar novas camadas de leitura sobre aquilo que identificamos como nosso, desafiando o olhar habitual e convidando o público a entrar num território entre o real e o imaginado.
Paralelamente, Joana desenvolve um trabalho profundamente humano com os utentes do Lar de Nossa Senhora da Conceição, em Felgueiras. Através de uma dinâmica sensível, cada idoso realiza o seu próprio retrato com o auxílio de um projetor — um processo simples, mas carregado de significado. O resultado são momentos que a artista descreve como “momentos de muito carinho e partilha”, essenciais numa fase da vida em que o vínculo se torna ainda mais necessário. Estes encontros revelam uma faceta do Bioma que ultrapassa o atelier e se estende ao cuidado intergeracional, à memória e ao valor de cada história.
O Bioma afirma-se, assim, como mais do que um atelier: é um território simbólico onde a arte funciona como ferramenta social, espaço de escuta e lugar de pertença. A cidade ganha um ponto de encontro que convida à imaginação, à experimentação e ao diálogo entre gerações.
Para quem lê e sente curiosidade, as portas do Bioma estão abertas — para aprender, descobrir, criar ou simplesmente respirar outro ritmo. Há sempre espaço para mais uma pessoa neste ecossistema que continua a crescer.
Por Ana in Wonderland